sábado, 27 de abril de 2013
Uma Dicotomia
E eu me contraponho em luz e sombras,
Pois minha escuridão me inunda como o sol invertido à meia-noite.
Dentre as louras madeixas que me pendem
Tintas escuras me tingem e tonalizam: profundidades abissais,
Existencialismos mesurados, olhos que espreitam
E pés que se apressam em correr sob a capa da noite...
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Por Raphaël Crone
domingo, 21 de abril de 2013
Doce Queixa
Preciso ser intelectualmente desafiado,
Preciso ser estimulado a criar, a escrever, a destruir.
Preciso de Shiva, que ele me derrube, para que depois eu me reconstrua dos pedaços,
Preciso do sopro que queima e incendeia,
Para dos meus versos renascer como pensamento etéreo e mãos de físico ardor...
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Por Raphaël Crone
O Fio das Horas
Vivo naquele par de horas,
Onde eu me deito na cama
E minh'alma se deita dentro de mim e se aninha.
Onde divago sobre sentimentalidades e existencialidades,
Onde caio e me levanto, planando, sem peso;
Onde o poeta fala e o homem, respeitoso, apenas escuta.
Vivo naquele momento tênue,
Entre o êxtase e a melancolia,
Teimando em noticiar o que ninguém mais percebe.
Vivo naquele instante finito do qual são feitas as estrelas:
Embora sendo efêmero, deixa rastros de luz cá dentro,
Luz que, com o toque dos meus lábios, faço tua alma se iluminar...
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Por Raphaël Crone
sábado, 20 de abril de 2013
Amanhã
Nesta noite, depois de anos, num encontro fortuito, revi sua imagem.
Dobrando uma esquina zombeteira desta existência,
Deparei-me com seus olhos outra vez:
Um assombro, um estanque, um silêncio,
Que nada mais é que um tigre que cochila, atento, e o som que precede o rugido.
Em algum bar próximo, o trip hop de Cat Power ecoava abafado.
Teus olhos nada me diziam, os meus diziam tantas coisas,
Meu coração de metal derretido pelo calor da tua presença infeliz.
Toda a poesia, todo o doloroso desenlace que tivemos, ali, perante nós outra vez,
Todas as risadas, as nódoas de vinho na toalha rendada,
Todas as lágrimas exacerbadas, todo o turbilhão de sentimentos que consomem,
Toda a reverberação dos meus sentidos, que pulsaram feito toque de caixa.
Num minuto inesperado, deparei-me com o seu fantasma:
Desci ao inferno e retornei: um abismo que suplanta ego, id e superego.
Lembranças repassadas em cadência rápida,
Pequenos solavancos, pequenos terremotos em minha cabeça obnubilada por você:
Você deitado em meu colo naquele banco de praça, a insuspeita emoção que nos preenchia,
Célere em partir como foi célere em chegar. Uma peça do destino.
E pensar que quando pensava em você, eu era capaz de ouvir as cores dos passarinhos...
Manoel de Barros bem dissera, num dia ensolarado.
Um sorriso tímido e me fui. Deixei você atrás e não olhei novamente.
O trip hop melancólico de Cat Power ainda ecoando pelo beco escuro,
Os olhos marejados e a cabeça embriagada pela lembrança de vocêzinho:
Mas já não era pra ser e não seria: uma fortuita percepção e entendimento.
Carrego hoje ainda você na memória, imperecível.
Todo a francesa boemia que há em minha composição lhe reclama.
Carrego você como o fantasma, de mãos dadas com o meu, num sempiterno amanhã
E ao amanhã, esse deus de mistérios, lhe entrego uma outra vez ainda mais...
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Por Raphaël Crone
terça-feira, 9 de abril de 2013
Narciso
Ele se debruça sobre si mesmo: pele, cabelos, dentes e fascínios,
A contemplação arrebatada de sua própria figura o consome.
Ele é Narciso: vivifica a glória sublime da vaidade,
Espalha ao seu redor o aroma doce de sua voz cálida,
Hipnotiza os olhos de quem lhe olha, desejosos.
Os fios dos seus cabelos dourados são perigosos como as serpentes da Medusa,
Corações e vontades transformadas em pedra, pusilânimes;
Ele se debruça sobre o lago e suspira: um desejo descompassado o consome.
Ele se debruça sobre seu reflexo e se admira: êxtase,
E num minuto, nele submerge e pra sempre ali dorme...
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Por Raphaël Crone
sábado, 6 de abril de 2013
Pérfida
És pérfida, mulher, como Goneril o fora para com seu pai,
O tolo Rei Lear dos contos do Shakespeare sombrio.
Teus olhos são cheios de malícia; sugas, qual vampira, dos meus lábios a decência,
Dos meus olhos a coragem e do meu peito a virtude.
Bebo do teu vinho e fico preso, cativo dos teus apertos,
Sem forças para reagir e sem desejos para de ti me apartar.
És traiçoeira, mulher, como Jezebel o fora para com Elias,
Teus olhos esfumaçados e negros, ardilosos como o gato à espera da hora de pular.
A coroa que puseste sobre minha cabeça é muito pesada agora,
Mas dela, bem como de ti, não consigo me libertar.
Gostaria de fugir de ti, como fugira o profeta errante,
Mas nem fogo dos céus poderiam consumir o que em mim plantaste ali.
És perigosa, mulher, como Maria Monforte o fora a Pedro da Maia,
Teu colo arfante, que carrega a beleza ebúrnea das louras
Delicia-me e mantem-me atado à corrente em tuas mãos.
Põe-me e dispõe-me como queres, e eu não resisto,
Pelo contrário, solicito de ti um momento de consternação:
Meu ramalhete de delícias por um cacho dos teus cabelos e um toque de tua mão.
És ardilosa, mulher, como para com Ló foram suas filhas no deserto.
De mim, queres prole abundante, como a areia da praia,
Onde cada grão é uma volúpia, brilho de chama e reflexo de gema rara e original.
Eu, como o velho na caverna, não resisto a ti, hebreia,
Aos teus dentes de pérolas e ao teu toque de lótus,
Tens-me, de boa vontade, entregue aonde me queres, liberto de mim, cativo do teu mal.
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Por Raphaël Crone
Espera
Hoje andei pela cidade procurando por você.
Rondei pelas vielas e becos, embaixo das marquises sonolentas,
Levantei os olhos até o alto dos edifícios,
Abaixei os olhos para o chão e suspirei.
Procurei você quando a noite caía indolente,
Procurei quando os luminosos de neon começaram a alardear seus produtos e cores,
Quando o vento tornou-se sussurrante
E quando uma sombra apressada cruzava a rua sem me ver.
Procurei você o dia todo em meu telefone,
Em meu messenger, em mil sabores,
Porém você ainda não me apareceu, a não ser por uma breve mensagem de manhã,
Depois da qual eu mantive vigília, esperançoso e vazio.
Espero por você como Romeu esperava Julieta,
Na sacada, escondido e fagueiro,
Com poesia nos lábios e olhos atentos,
Para o meu beijo nos seus lábios, nesta noite ainda, depositar.
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Por Raphaël Crone
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