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O rasgo acontece por que tem que acontecer:
Coesão inadequada e inadvertidamente ineficaz dos tecidos,
Pano de remendos.
Um fio que de tênue deixa de ser fio para ser fiapo,
Menos fio que um simples fio de cabelo,
Que é tudo menos simples, visto que é vivo.
Sentimentos são feitos de pano, eu penso.
Se rasgam e se costuram, remendos indissolúveis.
Sentimentalidades remendadas.
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Por Raphaël Crone.
domingo, 12 de abril de 2009
quinta-feira, 19 de março de 2009
De Noites
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[ São tempos difíceis para os sonhadores. ] * [ Jean-Pierre Jeunet ]
Hoje queria morrer, nem que não fosse de verdade.
Queria me esquecer do mundo e me lembrar um pouco de mim,
Do menino que fui e do homem que sou.
Queria me perder em meio a mim mesmo.
Uma confissão indecente.
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Por Raphaël Crone.
[ São tempos difíceis para os sonhadores. ] * [ Jean-Pierre Jeunet ]
Hoje queria morrer, nem que não fosse de verdade.
Queria me esquecer do mundo e me lembrar um pouco de mim,
Do menino que fui e do homem que sou.
Queria me perder em meio a mim mesmo.
Uma confissão indecente.
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Por Raphaël Crone.
Um Medo.
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[ Passava os dias ali, quieto, no meio das coisas miúdas./ E me encantei. ] * [ Manoel de Barros ]
[ Quando se ama não é preciso entender o que se passa lá fora,/ pois tudo passa a acontecer dentro de nós. ] * [ Clarice Lispector ]
[ Solução melhor é não enlouquecer mais do que já enlouquecemos,/ não tanto por virtude, mas por cálculo./ Controlar essa loucura razoável:/ se formos razoavelmente loucos não precisaremos desses sanatórios/ porque é sabido que os saudáveis não entendem muito de loucura./ O jeito é se virar em casa mesmo,/ sem testemunhas estranhas./ Sem despesas. ] * [ Lygia Fagundes Telles ]
No meio das coisas miúdas me encantei.
No meio da inexistencialidade do que é belo e do que é terno.
Julgava que o beijo que lhe dei fosse o princípio da eternidade
E embora ainda me beije hoje, tenho medo por vezes.
Embora você segure a minha mão, tenho ciúmes.
Embora me prometa amor e referida eternidade, não me satisfaço.
Preciso de bebida forte e de sobriedade.
Preciso ajuntar minhas coisas miúdas, minhas partes de mim
Que eu mesmo lancei ao vento e que outros despedaçaram.
Preciso me inebriar com a taça de um vinho que não conheço.`
Preciso amar-me e perdoar-me, preciso de misericórdia.
Preciso de indulgência e salvação.
Tenho medo por muito amar, por que ninguém nunca muito me amou.
Tenho medo de beijar-lhe com os lábios da alma, por que ninguém nunca me concedeu mais que um beijo de carne.
Tenho medo de julgar-me afortunado, porque a fortuna não é para todos os que a querem ter.
Naquela noite eu beijei-lhe com lábios e lágrimas.
Eu beijei-lhe olhos, orelhas, face e coração.
Eu beijei-lhe com a comoção que me tomava,
Com o êxtase apático e recatado de minhas sensações.
Tenho medo de ser homem, neste momento, acredite.
Eu, que de tão valente, matei leões imaginários e medusas.
Tenho medo de ser homem agora, queria ser menino.
Deitar-me sobre a cama e não imaginar mais que uma bola e um livro no dia seguinte.
Desejava não saber que o mundo é mais que um livro e uma bola.
Ao mesmo tempo, amo-lhe. Este talvez seja o problema:
Amo-lhe tanto que tenho medo de tanto amar.
Tenho medo de amar sozinho ou amar demais.
Tenho o medo de quem já não é mais menino. Ele dói. Machuca.
Ele me assalta no meio da noite, ele me ameaça.
Seja ele real ou inventado, temido por não existir,
Mas por ser possibilidade, que de tão palpável, toma forma e corpo.
Toma voz própria e ameça, como o silvo da serpente.
Queria dormir como menino e temer somente o vento da noite.
Mas tenho medo de homem. Uma virtude que eu nunca desejei.
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Por Raphaël Crone.
[ Passava os dias ali, quieto, no meio das coisas miúdas./ E me encantei. ] * [ Manoel de Barros ]
[ Quando se ama não é preciso entender o que se passa lá fora,/ pois tudo passa a acontecer dentro de nós. ] * [ Clarice Lispector ]
[ Solução melhor é não enlouquecer mais do que já enlouquecemos,/ não tanto por virtude, mas por cálculo./ Controlar essa loucura razoável:/ se formos razoavelmente loucos não precisaremos desses sanatórios/ porque é sabido que os saudáveis não entendem muito de loucura./ O jeito é se virar em casa mesmo,/ sem testemunhas estranhas./ Sem despesas. ] * [ Lygia Fagundes Telles ]
No meio das coisas miúdas me encantei.
No meio da inexistencialidade do que é belo e do que é terno.
Julgava que o beijo que lhe dei fosse o princípio da eternidade
E embora ainda me beije hoje, tenho medo por vezes.
Embora você segure a minha mão, tenho ciúmes.
Embora me prometa amor e referida eternidade, não me satisfaço.
Preciso de bebida forte e de sobriedade.
Preciso ajuntar minhas coisas miúdas, minhas partes de mim
Que eu mesmo lancei ao vento e que outros despedaçaram.
Preciso me inebriar com a taça de um vinho que não conheço.`
Preciso amar-me e perdoar-me, preciso de misericórdia.
Preciso de indulgência e salvação.
Tenho medo por muito amar, por que ninguém nunca muito me amou.
Tenho medo de beijar-lhe com os lábios da alma, por que ninguém nunca me concedeu mais que um beijo de carne.
Tenho medo de julgar-me afortunado, porque a fortuna não é para todos os que a querem ter.
Naquela noite eu beijei-lhe com lábios e lágrimas.
Eu beijei-lhe olhos, orelhas, face e coração.
Eu beijei-lhe com a comoção que me tomava,
Com o êxtase apático e recatado de minhas sensações.
Tenho medo de ser homem, neste momento, acredite.
Eu, que de tão valente, matei leões imaginários e medusas.
Tenho medo de ser homem agora, queria ser menino.
Deitar-me sobre a cama e não imaginar mais que uma bola e um livro no dia seguinte.
Desejava não saber que o mundo é mais que um livro e uma bola.
Ao mesmo tempo, amo-lhe. Este talvez seja o problema:
Amo-lhe tanto que tenho medo de tanto amar.
Tenho medo de amar sozinho ou amar demais.
Tenho o medo de quem já não é mais menino. Ele dói. Machuca.
Ele me assalta no meio da noite, ele me ameaça.
Seja ele real ou inventado, temido por não existir,
Mas por ser possibilidade, que de tão palpável, toma forma e corpo.
Toma voz própria e ameça, como o silvo da serpente.
Queria dormir como menino e temer somente o vento da noite.
Mas tenho medo de homem. Uma virtude que eu nunca desejei.
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Por Raphaël Crone.
quarta-feira, 18 de março de 2009
Alguém Me Disse.
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[ On me dit que nos vies ne valent pas grand chose,/ Elles passent en un instant comme fanent les roses./ On me dit que le temps qui glisse est un salaud/ Que de nos chagrins il s'en fait des manteaux./ Pourtant quelqu'un m'a dit/ Que tu m'aimais encore,/ C'est quelqu'un qui m'a dit que tu m'aimais encore./ Serais ce possible alors ?/ On dit que le destin se moque bien de nous/ Qu'il ne nous donne rien et qu'il nous promet tout./ Parait qu'le bonheur est à portée de main,/ Alors on tend la main et on se retrouve fou./ Pourtant quelqu'un m'a dit/ Que tu m'aimais encore,/ C'est quelqu'un qui m'a dit que tu m'aimais encore./ Serais ce possible alors ?/ Mais qui est ce qui m'a dit que toujours tu m'aimais?/ Je ne me souviens plus c'était tard dans la nuit,/ J'entend encore la voix, mais je ne vois plus les traits/ "Il vous aime, c'est secret, lui dites pas que j'vous l'ai dit."/ Tu vois quelqu'un m'a dit/ Que tu m'aimais encore,/ Me l'a t'on vraiment dit/ Que tu m'aimais encore,/ Serais ce possible alors ?/ On me dit que nos vies ne valent pas grand chose,/ Elles passent en un instant comme fanent les roses./ On me dit que le temps qui glisse est un salaud,/ Que de nos tristesses il s'en fait des manteaux./ Pourtant quelqu'un m'a dit/ Que tu m'aimais encore,/ C'est quelqu'un qui m'a dit que tu m'aimais encore./ Serais ce possible alors ? ] * [ Carla Bruni ]
A possibilidade de você me amar. Seria possível, então?
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Por Raphaël Crone.
[ On me dit que nos vies ne valent pas grand chose,/ Elles passent en un instant comme fanent les roses./ On me dit que le temps qui glisse est un salaud/ Que de nos chagrins il s'en fait des manteaux./ Pourtant quelqu'un m'a dit/ Que tu m'aimais encore,/ C'est quelqu'un qui m'a dit que tu m'aimais encore./ Serais ce possible alors ?/ On dit que le destin se moque bien de nous/ Qu'il ne nous donne rien et qu'il nous promet tout./ Parait qu'le bonheur est à portée de main,/ Alors on tend la main et on se retrouve fou./ Pourtant quelqu'un m'a dit/ Que tu m'aimais encore,/ C'est quelqu'un qui m'a dit que tu m'aimais encore./ Serais ce possible alors ?/ Mais qui est ce qui m'a dit que toujours tu m'aimais?/ Je ne me souviens plus c'était tard dans la nuit,/ J'entend encore la voix, mais je ne vois plus les traits/ "Il vous aime, c'est secret, lui dites pas que j'vous l'ai dit."/ Tu vois quelqu'un m'a dit/ Que tu m'aimais encore,/ Me l'a t'on vraiment dit/ Que tu m'aimais encore,/ Serais ce possible alors ?/ On me dit que nos vies ne valent pas grand chose,/ Elles passent en un instant comme fanent les roses./ On me dit que le temps qui glisse est un salaud,/ Que de nos tristesses il s'en fait des manteaux./ Pourtant quelqu'un m'a dit/ Que tu m'aimais encore,/ C'est quelqu'un qui m'a dit que tu m'aimais encore./ Serais ce possible alors ? ] * [ Carla Bruni ]
A possibilidade de você me amar. Seria possível, então?
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Por Raphaël Crone.
L' Envoûtement.
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[ Que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc./ Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós. ] * [ Manoel de Barros ]
Eu:
-Por que dentre tantos, por ele me encanto?
O espelho:
-Por que ele o ama com o fundo de seus olhos.
Porque ele se debruça na janela para contemplá-lo.
Porque a sua alma se debruça em seus olhos para vê-lo passar.
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Por Raphaël Crone.
[ Que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc./ Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós. ] * [ Manoel de Barros ]
Eu:
-Por que dentre tantos, por ele me encanto?
O espelho:
-Por que ele o ama com o fundo de seus olhos.
Porque ele se debruça na janela para contemplá-lo.
Porque a sua alma se debruça em seus olhos para vê-lo passar.
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Por Raphaël Crone.
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Pensando Cá Comigo...
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[ Passava os dias ali, quieto, no meio das coisas miúdas./ E me encantei. ] * [ Manoel de Barros ]
[ Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo./ Não é./ A coisa mais fina do mundo é o sentimento./ Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou comigo:/ "Coitado, até essa hora no serviço pesado"./ Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente./ Não me falou em amor./ Essa palavra de luxo. ] * [ Adélia Prado ]
[ No fim da tarde, nossa mãe aparecia nos fundos do quintal :/ "Meus filhos, o dia já envelheceu,/ entrem pra dentro". ] * [ Manoel de Barros ]
Eu envelheço como envelhece o dia,
Rejuvenescendo 24 horas a cada manhã.
Eu amo pelo luxo de amar.
Eu amo pelo cuidado de amar.
Por todos os ensinamentos que o amor me ensina.
Redundantemente.
As tais coisas miúdas que o Manoel e a Adélia conhecem bem.
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Por Raphaël Crone.
[ Passava os dias ali, quieto, no meio das coisas miúdas./ E me encantei. ] * [ Manoel de Barros ]
[ Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo./ Não é./ A coisa mais fina do mundo é o sentimento./ Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou comigo:/ "Coitado, até essa hora no serviço pesado"./ Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente./ Não me falou em amor./ Essa palavra de luxo. ] * [ Adélia Prado ]
[ No fim da tarde, nossa mãe aparecia nos fundos do quintal :/ "Meus filhos, o dia já envelheceu,/ entrem pra dentro". ] * [ Manoel de Barros ]
Eu envelheço como envelhece o dia,
Rejuvenescendo 24 horas a cada manhã.
Eu amo pelo luxo de amar.
Eu amo pelo cuidado de amar.
Por todos os ensinamentos que o amor me ensina.
Redundantemente.
As tais coisas miúdas que o Manoel e a Adélia conhecem bem.
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Por Raphaël Crone.
Paranoia.
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[ É preciso estar sempre embriagado./ Aí está: eis a única questão./ Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra,/ é preciso que se embriaguem sem descanso./ Com quê?/ Com vinho, poesia ou virtude, a escolher./ Mas embriaguem-se./ E se, porventura, nos degraus de um palácio,/ sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto,/ a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar,/ pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio,/ a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala,/ pergunte que horas são;/ e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão:/ "É hora de embriagar-se!/ Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se;/ embriaguem-se sem descanso"./ Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. ] * [ Charles Baudelaire ]
[ Viver é super difícil. O mais fundo está sempre na superfície. ] * [ Paulo Leminski ]
[ Quem não souber povoar a sua solidão, também não conseguirá isolar-se entre a gente. ] * [ Charles Baudelaire ]
Eu rolo na cama durante a noite.
Uma sucessão de minutos enlouquecedoramente longos.
Eu espero o alvorecer e ele tarda.
Não falha, deveras, mas tarda sobremaneira.
Eu sinto saudades ou mais que isso:
Eu sinto uma fome animal de lhe ver.
Eu sinto as minhas entranhas revirarem-se,
Eu sinto náusea psicosomática,
Eu sinto o ar faltar, dispneia misturada à costumeira apneia do sono,
Apneia do sono desperto. Eu penso em ligar.
Você trabalha agora. Não lhe importunarei.
Eu só gostaria de que o seu tom de voz fosse sempre doce
E não frio, como ele pode ser às vezes.
Eu tenho medo do frio do telefone.
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Por Raphaël Crone.
[ É preciso estar sempre embriagado./ Aí está: eis a única questão./ Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra,/ é preciso que se embriaguem sem descanso./ Com quê?/ Com vinho, poesia ou virtude, a escolher./ Mas embriaguem-se./ E se, porventura, nos degraus de um palácio,/ sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto,/ a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar,/ pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio,/ a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala,/ pergunte que horas são;/ e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão:/ "É hora de embriagar-se!/ Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se;/ embriaguem-se sem descanso"./ Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. ] * [ Charles Baudelaire ]
[ Viver é super difícil. O mais fundo está sempre na superfície. ] * [ Paulo Leminski ]
[ Quem não souber povoar a sua solidão, também não conseguirá isolar-se entre a gente. ] * [ Charles Baudelaire ]
Eu rolo na cama durante a noite.
Uma sucessão de minutos enlouquecedoramente longos.
Eu espero o alvorecer e ele tarda.
Não falha, deveras, mas tarda sobremaneira.
Eu sinto saudades ou mais que isso:
Eu sinto uma fome animal de lhe ver.
Eu sinto as minhas entranhas revirarem-se,
Eu sinto náusea psicosomática,
Eu sinto o ar faltar, dispneia misturada à costumeira apneia do sono,
Apneia do sono desperto. Eu penso em ligar.
Você trabalha agora. Não lhe importunarei.
Eu só gostaria de que o seu tom de voz fosse sempre doce
E não frio, como ele pode ser às vezes.
Eu tenho medo do frio do telefone.
___
Por Raphaël Crone.
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