domingo, 17 de julho de 2016
Réquiem
Eu gosto da sua juventude, dos seus traços firmes e imaculados,
Eu me alimento dela, como Nosferatu, que vive nas sombras.
Deus está vindo para você, em sôfrega cadência muda de tambores desmaiados, através do toque dos meus lábios vermelhos.
Você fecha os seus olhos em um abraço frouxo, os cabelos desalinhados caindo por sobre os meus braços.
Para que os anos não passem para mim,
Eu dreno, silenciosamente, a vitalidade que corre em suas veias:
Eu bebo de você e, à medida que você desaparece, eu, finalmente, passo a viver para sempre.
Entranhamento
Eu nunca fui bom em verbalizar o que eu sinto.
Eu sou como um vulcão longamente adormecido e que acabou de despertar:
Cinzas, névoa, fogo e escuridão.
O meu apocalipse é fabuloso: eu vomito a minha lava para dentro de mim.
sábado, 28 de maio de 2016
Serial Killer / Opus 2
Ela abre os olhos: a sala é larga e melancólica, banhada em uma estranha luz vermelha;
Tão vermelha que o contato dela com a sua pele tem o saibro de sangue nos lábios.
Ao canto, ela vê uma cadeira vazia. Uma mesa do outro lado,
Alguns instrumentos impossíveis de se reconhecer em meio à penumbra, que repousam em uma prateleira alta, que se esgueira contra a parede.
Ela, com as mãos para cima, atadas por uma corda presa em um gancho no teto.
Um gancho de açougueiro.
Em algum canto há um rádio. E, curioso: o som que emana dali não combina com a atmosfera lúgubre do recinto.
É uma batida viciosa de música eletrônica, com violinos e sussurros mixados,
Uma letra ininteligível, mas em uma estrutura pulsátil e metálica. Um canto de loucura, deveras.
O chão parece sujo de manchas largas e escuras. No canto oposto à cadeira, há um amontoado de material estranho, úmido e impossível de se reconhecer, tampouco.
Eventualmente, a lâmpada vermelha pisca. Apaga. Reacende em seguida, para novamente apagar-se.
A última lembrança que tinha era a da avenida sonolenta e erma e a de um carro aproximando-se.
Cada passo que ela dava, tentando andar mais depressa, soava como uma batida de um martelo em uma bigorna: os seus saltos altos contra o asfalto enregelado.
O motorista parou ao seu lado, perguntando onde ficava a Avenida Wellington. Ora, aquela era a Avenida Wellington, dissera ela.
Risadas, pedidos de desculpa pela confusão, ela se afastando aliviada e apressada e o carro lançando-se contra ela no momento seguinte.
Os seus saltos altos não estavam mais lá, assim como a sua bolsa. O seu vestido havia sido cortado e jazia aos seus pés. Apenas a sua lingerie cobria o seu corpo esbelto.
A sala era fria, o toque dos seus pés descalços contra o chão a fazia tremer insistentemente, por mais que tentasse dominar-se.
Por um momento, moveu um dos pés e ele tocou uma das manchas escuras. Estava quase sólida, mas ainda era o resíduo de algo líquido. Viscoso. Espesso.
Estava a ponto de recomeçar a chorar quando uma porta abriu-se no alto de uma escadaria. A sombra de um homem apareceu contra a luz. Ali começava a fantasmagoria.
Um Alerta
Ele é como um carro em chamas, correndo
freneticamente por uma estrada vazia e escura. Uma pira incandescente e rubra,
como uma vida que foge da extinção.
Belos
olhos, cabelos e barba negros, pele pálida. Corpo esguio, pronto para ser
despedaçado e atirado aos cães, para depois recompor-se, qual estúpida chama de
um desejo bruxuleante.
Sua
risada é como o prenúncio de um trovão distante, que estremece a noite, dela se
alimenta e, logo, desaparece. Ele é gracioso e excêntrico,com um quê de misterioso, convicto e encarcerado nas
entranhas de uma pilha de carbono melancólica.
Tudo o que existe em seu interior é
negror e névoa; tudo o que ele é deve ser evitado. De suas veias, escorre
veneno rubro e viscoso, que mancha o chão sob os seus sapatos empoeirados.
A ilusão de sua presença é
um convite para conhecer o verdadeiro deus, para tocar a sua face efêmera e,
então, chorar de alegria nas profundezas do seu amor.
Ele alimenta-se de
juventude, haja vista que os anos para ele passam, ainda que mais lentos que o
usual. Ele é feroz e impaciente, agressivo e impiedoso. Não se compadece com
lágrimas e nem com súplicas. Ele é a última curva antes do amanhecer, envolta
entre a fumaça dos seus cigarros, afugentada pelos seus dentes à mostra.
Ele é formoso, mas obscuro
e instável como uma sonata de Bach. Bem farias em fugir dele, humano incauto.
Apesar de humano ele também ser, ele é sombra e pó. Ferrugem e osso. Um último
gemido e o silêncio. Não mais que um estranho sonho e a derradeira quimera,
afinal.
segunda-feira, 4 de abril de 2016
Serial Killer / Opus 1
Somos feitos do mesmo tecido que constitui a madrugada, você e eu:
Roído, remendado, manchado de sonho e embriaguez.
Eu espreito o barulho que os seus sapatos produzem contra o asfalto enregelado: night stalker.
Volta e meia, você olha para os lados. Em cada esquina você aperta o passo,
Breves olhares desconfiados, enquanto se dirige para longe da calçada.
Seus braços cruzados sobre seu peito carregam um casaco escuro; sua bolsa pendurada sobre um ombro,
Seu descuidado esquadrinhamento do perímetro morto que a cerca se pendura sobre os dois ombros,
Fazendo-a curvar-se ligeiramente sob a tensão de estar vulnerável em horas desmaiadas, que de longe precedem o nascer do Sol.
O que faz uma moça bonita assim tão sozinha, tão assustada na calada da noite? - eu me pergunto.
Você gostaria de ter a certeza de que está invisível sob o manto escuro de Nix, mas - pálida ironia - eu a observo. Você não é invisível para mim;
Pelo contrário: brilha como diamantes sob o Sol.
A forma de suas curvas se insinuam, ainda que involuntariamente, sob esse vestido preto apertado.
De você emana uma sensualidade assustada, porém duradoura, como uma onda que banha uma ilha nua e desolada. Uma espécie de Dália Negra.
Outras antes de você já estiveram diante do impassível delirar dos meus olhos. E outros.
E todos tombaram.
Olhe para os lados enquanto caminha, bela dama da pele ebúrnea, ostentando o frescor agradável das loiras. Serão seus olhos claros? Escuros?
Em breve, de brilhantes eles se farão opacos. De assustada você se fará desmaiada de pavor.
Porque eu sou a noite; eu sou a mão escura, sou o vórtice vermelho que molhou as ruas de Whitechapel, sou a insensatez de Dahmer, Ramirez, Gacy, Bundy.
Eu crio o terror e a noite é negra; nela os medos proliferam-se como larvas em carne podre.
Eu sou criado pela cultura pop: procuro fazer da minha efemeridade algo eterno. Olhe para os lados, mas não olhe para trás.
Eu a observo na calada da noite. Eu sou o seu after party.
[ ... ]
A avenida adormecida continua desenrolando-se sobre o clac dos seus saltos. Clac clac clac, tacones lejanos. Dou partida no motor, estou indo encontrá-la.
Eu realmente gosto disso. Você vai me convidar para entrar quando a hora chegar?
domingo, 3 de abril de 2016
Hollywood Depois da Meia-Noite
A pressão das suas mãos contra as minhas costas nuas, aquele arquejo: eu me sentia transportado para Hollywood.
Um convite à insensatez, ao desregramento, à demolição completa, a me ajoelhar perante os altares vacilantes do ego.
"Eu te vejo", era só o que eu podia ouvir do seu balbuciar em meu ouvido, que parecia eterno, mesmo durando o tempo de uma batida de coração.
Palmeiras silenciosas, céu sempre azul, avenidas abertas; suas unhas vermelhas quebrando-se contra a minha pele, lábios escarlates.
Eu me desfazia em todo aquele blues, era consumido pela chama de cada jazz que tocava em cada esquina mal iluminada por um neon prestes a se apagar.
Álcool, fumaça de cigarros, onde o ilícito sobejava e onde eu aspirava pelo ilegal. Você me dizia que deveria ser ilegal despedaçar assim o coração de uma mulher.
Cabelos louro-platinados a la Jean Harlow, Golden Age, golden tragedies. Eu costumava gostar disso.
Sirenes cortando a madrugada morta de LA, a Mulholland Drive tão sinuosa quanto as curvas dos seus quadris.
Minha Joan Crawford, minha Bette Davis, minha Lauren Bacall. Meu paraíso e minha sombra que se esgotava por entre as noites dissolutas e faiscantes.
Like my body? Want some money? Wanna play? Want a vi-per? Dentes à mostra, mostre-me mais. Mostre-me o seu sangue, essa torrente escarlate que manchou tantas banheiras aleatórias.
Dissolva-me nesse abraço eterno, que dura uma batida de coração. Deslumbre-me com todas as cores que a sua escuridão pode forjar.
Beba de mim e viva para sempre - as estrelas não envelhecem, ¿verdad?
Viveremos de devastação e luzes brilhantes enquanto você ainda puder me enxergar. Por um breve instante imemorial. Enquanto nós ainda formos bem-vindos em Hollywood.
quarta-feira, 9 de março de 2016
Rendição
3 da madrugada, hora morta. A hora morta.
Eu, sentado no quarto escuro; a gata silenciosa, sentada no parapeito da janela.
Fumaça de cigarros rodopiando pelo ar dormente, em minha mente um "não" ressoa:
Uma palavra de violência, um grito de guerra que despedaça todos os armistícios previamente planejados.
Pensar no sentimento que eu lhe tinha é pele derretendo sobre carne, é carne se rompendo sobre ossos, são ossos secos estalando sob pés descalços.
Notre grand amour est mort.
Um jogo perverso de se esconder, um homem que caminha pelos labirintos da casa - oculto.
Aparas de unhas, fios de cabelo pelo caminho. Eu me escondendo, não de você,
De mim mesmo. Gotas vermelhas, de vinho ou de sangue, que diferença? Ya me da igual...
Só sabe de amores quem sabe o que é martírio, só sabe de amores quem entende a diferença entre vírgulas e ponto-e-vírgulas.
Pensar em você é um mundo em chamas. Pensar em você é como aquele som de cello, dramático, irresoluto: um lamento que corta o ar e, repentinamente, adormece...
Como os parágrafos deste poema pagão. Exaustos, reticentes, como que morrendo;
Ao se encurtarem, sangram e são podados e desmaiam... E sobram os "es".
(Suspiro, arquejo.
Et voilà).
...
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