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domingo, 31 de outubro de 2010

Samhain

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[ Eu posso ver as luzes na distância, tremeluzindo sob o manto escuro da noite... Velas e lanternas estão dançando, dançando uma valsa na Noite de Todas as Almas... ] * [ Loreena McKennitt ]

[ Quando a Lua, numa nuvem, lançou a Noite, pendurada sobre o topo das árvores,/ Você me cantou sobre um passado distante, que fez meu coração bater forte e rápido:/ Agora eu sei que estou em casa, finalmente./ Você me ofereceu asas de águia, com as quais eu poderia planar até o Sol, e cantar/ E se eu escutasse o lamento da coruja, eu poderia voar para dentro da floresta/ E dentro dessa escuridão te encontrar.../ Então, o nosso amor não é coisa simples, nem nossas sólidas verdades/Mas como a Lua puxa as marés, nossos corações se tocam em colisão:/ Eu serei um sopro da Lua ao seu lado... ] * [ Loreena McKennitt ]

Amanhece chovendo em Samhain, o orvalho dos que partiram para a terra além do rio,
As preces que caem em gotas do céu sobre as cidades que dormem.
Noite das bruxas, onde o véu entre os mundos torna-se tênue,
O Samhain dos antigos celtas retorna à vida,
A Roda girando, o prenúncio do Inverno,
A Mãe que está descendo ao submundo em busca de seu consorte.
Tempo das lanternas e das preces às almas,
"Permaneça em paz, meu bom amigo!
Aí, onde eu não vejo, mas de onde sou visto! [...]".
A chama entre as brumas, o lago de Avalon,
O retorno da barca de Aqueronte.
Hoje é Halloween, conforme os versos da canção antiga,
Dia das criancinhas se esconderem por sob as capas,
Dia da Lâmia passar sua visita noturna,
Dia dos demônios meridionais retornarem à sua noite original...
"Mantenham as lanternas acesas, para que o mal passe reto!
Mantenham as abóboras sorrindo..."
Hoje é Halloween, o triunfo de Mike Mayers,
Carnificinas cinematográficas,
Danças de roda sob a capa da noite, nos bosques adormecidos.
Into the woods, more and more...
Covens em audiência, invocações e encantos,
A época de resgatar o deus e trazer dele seu filho a ser partejado em Yule...
Hoje é Halloween, o urbano e inventado,
E o lendário e espiritual.
Samhain, que do outro lado do véu emane benção e sabedoria!
Poder, Mãe!
Que emane justiça e claridade,
Discernimento e força
Para seguirmos girando a Roda, que sempre foi e nunca vai deixar de ser,
Para que mantenhamos a luz em convergência,
Crescimento e aprendizado, ascenção perene e evolução.

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Por Raphaël Crone

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Insustentabilidade

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De vez em quando eu tento me aparar,
Percebo que vou cair e ponho uma mão por baixo de mim,
Tento amortecer o tombo.
Quase nunca consigo. Caio e me esborracho.
Um aprendizado incoerentemente diáfano.
Uma bruma que me ensina a ser homem.

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Por Raphaël Crone.

sábado, 30 de maio de 2009

Velha Consideração de Jovem.

---[ Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa. ] * [ Guimarães Rosa ]

[ Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento. ] * [ Clarice Lispector ]

[ A maior riqueza do homem é a sua incompletude. Nesse ponto sou abastado. Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito. Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva etc. etc. Perdoai. Mas eu preciso ser Outros. Eu penso renovar o homem usando borboletas. ] * [ Manoel de Barros ]


Julgo um erro tentar cruzar a vida num barco de entendimentos.
As filosofias não são feitas de matéria e a vida é simples filosofia.
Perdemos muito de nós tentando compreender.
Perdemo-nos em meio às brumas do mar que navegamos
E o tempo passa a passar nessa hora, inexoravelmente, como Senhor de nós.
Julgo um erro tentar entender toda a vida.
Há momentos que não foram feitos para serem entendidos
E a maioria dos entendimentos não abarcam um pingo de tudo o que gostaríamos de saber.

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Por Raphaël Crone.

Última Noite.

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[ Turn the lights out,/ This shit is way too fucking bright./ Wanna poke my eyes out/ If you wanna mess with my eyesight./ Just let me get my head right,/ Where the hell am I?/ Who are you?/ What'd we do last night?/ Hey, who are you?/ What'd we do last night?/ Can't remember what I did last night,/ Maybe I shouldn't have given in but I just couldn't ./ I didn't but I think I might've,/ Everything, everything is still a blur.../ Can't remember what I did last night,/ Everything, everything is still a blur.../ Can't remember what I did last night,/ Everything, everything is still a blur... ] * [ Britney Spears ]


Acordei rolando entre lençóis cheirando a rosas e sexo,
Tomado por um torpor libidinoso, uma noite de aromas ilícitos.
Libertinagens.
Não consigo me concentrar, tudo parece diferente,
Como se a minha mente pedisse uma xícara de café forte para poder despertar enfim.
O que se passa comigo?
O que acontece?
De um canto do quarto mal iluminado pelas janelas de cortinas semicerradas
Emana o som de uma canção que eu não entendo bem,
Um som metálico de guitarras japonesas, gemidos ininteligíveis.
Ininteligível recordação que me vem e que me deixa.
Observo meu corpo nu entre os lençóis da cama
E igualmente noticio um vulto nu parado à porta do quarto, observando-me com um esgar de sorriso rasgando os lábios.
Pas de malice, pas de malice...
Uma sensação de cansaço me toma e mesmo percebendo que muito de mim está exposto aos olhos do estranho, não me dou ao trabalho de me cobrir.
Uma quebra de decoro.
A luz mal filtrada que ultrapassa os cortinados toca a minha pele salientando a sua brancura e a sua firmeza,
Por um minuto observo os traços em meu abdome, com a língua sinto meus lábios intumescidos,
Passando a mão por meu pescoço, sinto um frêmito que enrijece meus mamilos...
E o vulto a me observar. Interrogações interiores.
Não me recordo de muita coisa, tudo ainda é um borrão,
Tudo é confuso: o leito onde me deito e a sombra com quem me deitei outrora.
Sento-me na cama e meu corpo se insinua, tomo a sombra que se aproxima sorrindo e devagar por uma das mãos,
Faço-a sentar à minha frente e esta me toca: eu me arrepio.
Deitamos: as horas prosseguem.
Eu ainda não entendo, tudo ainda é um borrão em minha cabeça...
O que acontece?
Mas já não me importa tanto mais.

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Por Raphaël Crone.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Mon Âme.

-- [ Tu es ma came,/ Mon toxique, ma volupté suprême./ Mon rendez-vous chéri et mon abîme,/ Tu fleuris au plus doux de mon âme./ Tu es ma came,/ Tu es mon genre de délice, de programme./ Je t'aspire, je t'expire et je me pâme,/ Je t'attends comme on attend la manne./ Tu es ma came,/ J'aime tes yeux, tes cheveux, ton arôme./ Viens donc là que j'te goûte que j'te hume,/ Tu es mon bel amour, mon anagramme./ Tu es ma came,/ Plus mortelle que l'héroïne afghane,/ Plus dangereux que la blanche colombienne,/ Tu es ma solution, mon doux problème./ Tu es ma came,/ A toi tous mes soupirs, mes poèmes,/ Pour toi toutes mes prières sous la lune,/ A toi ma disgrâce et ma fortune./ Tu es ma came,/ Quand tu pars c'est l'enfer et ses flammes,/ Toute ma vie, toute ma peau te réclamenton,/ Dirait que tu coules dans mes veines./ Tu es ma came,/ Je me sens renaître sous ton charme,/ Je te veux jusqu'à en vendre l'âme,/ À tes pieds je dépose mes armes./ Tu es ma came, tu es ma came. ] * [ Carla Bruni ]


Eu sussurro à francesa em seus ouvidos,
Enquanto um violão lamurioso geme perdido no espaço:

[ Você é meu vicio, você é meu vicio.
O meu produto tóxico, a minha volúpia suprema.
O meu encontro preferido e meu abismo.


Você até faz a minha alma mais doce.
]

Você até faz a minha alma mais doce.

Eu mordisco a sua orelha e sinto que o eu-você nos arrepiamos.
Eu toco o seu peito e encontro um mamilo:
Você, o meu vicio.
À francesa, eu "francesamente" prossigo meu lamento:

[ Você é meu vicio. É o meu tipo de delicia, de programa.
Eu te aspiro, eu te expiro e desmaio.
Eu te espero como se espera o maná.
Você é meu vicio,
Gosto dos teus olhos, dos teus cabelos, do teu aroma.


Venha, então eu te enrolo e eu te fumo.
Você é o meu belo amor, o meu anagrama.
Você é meu vicio,
Mais mortal que a heroína afegã,
Mais perigoso que a cocaína colombiana.
Você é a minha solução, o meu doce problema.
]
Eu me debruço sobre as suas costas nuas.
Eu aliso a sua pele como tecido, eu lambo a sua nuca como um gato,
Eu junto a nudez de minha pele à da sua,
Eu saboreio o silêncio e o sorriso malicioso que o seu rosto esboça,
Eu finjo aquietar-me, apenas para recomeçar,
Insistente:

[ Você é meu vicio,
A você todos os meus suspiros, os meus poemas.
Para você, todas as minhas orações e a lua.
A você a minha desgraça e a minha fortuna.
Você é meu vicio,
Quando vai embora, é como o inferno e as suas chamas,


Toda minha vida, toda minha pele te reclama,

Diria-se que você escorre nas minhas veias.
]
Eu me viro e lhe encontro, frente a mim,
Lábio a lábio, sua alva tez frente a minha alva tez,
Cesso as poesias, porque existe um momento,
Onde a vida começa,
Em que toda a poesia é vã, e silenciosa.
Eu lhe encontro dentro de mim e eu me encontro dentro de você.
Um vicio que me sustenta, que me sacia,
Que mata a minha fome e que inebria os meus sentidos.
Oh, mon dieu.
À francesa, ao final, eu recomeço.
Eu lhe canto com voz rouca e o violão recomeça também, ao longe,
Ainda perdido no tempo e no espaço,
Mas canta e eu o acompanho,
E você, infantilmente deitado em meus braços,
Em meio a lençóis desfeitos, me acompanha
E ouve (e sorri):

[ Você é meu vicio,
Eu te quero que até vendo a alma.


Aos teus pés eu jogo as minhas armas.

Você é meu vicio, você é meu vicio.
]

[ Nota: Os excertos destacados pertencem à canção Tu Es Ma Came, de Carla Bruni, encontrada no álbum Comme Si De Rien N'Etait. ]
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Por Raphaël Crone.

terça-feira, 19 de maio de 2009

O Jovem Adam.

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[ Carro superaquecido,/ Pule para fora do meu banco,/ Para o lado da rodovia, querido./ Nossa estrada é longa,/ Sua influência é forte,/ Por favor, nunca desista.../ Eu sei que não te conheço,/ Mas te quero muito./ Todo mundo tem um segredo guardado,/ Mas será que é possível mantê-lo?/ Não, eles não conseguem!/ Dirigindo rápido agora,/ Não pense que eu sei ir devagar./ Onde você está agora?/ Eu o sinto por perto,/ Aí está você!/ Esfrie esses motores,/ Acalme esses jatos./ Eu te pergunto o quanto quente isso pode ficar/ E como você fará para secar essas gotas de suor.../ Lentamente você diz: "Eu ainda não cheguei lá". ] * [ Maroon 5 ]


Um segredo. Ella sopra em meus ouvidos uma corrente de outono, fria da noite:

[ Veja, poeta: uns pés de homem sob uma mesa, roçando umas pernas de mulher, mulher dum tal bruto marinheiro. ]


[ Pressuposto - Início da história: ]
A mulher - Ella - alta, cara limpa, magra e branca como a cera.
Uma miragem de Álvares de Azevedo, ultra-romântica.
Um minuto: como ultra-romântica, se ela come e mastiga a mágoa de não conhecer romantismo,
Posto que tal mimo foi-lhe negado?

[ Registro do poeta: Interrompo-me por um instante. A noite cai enquanto escrevo isto. Ouço um violão ao longe. E vejo fumaças de um bodoque. Ao longe. ]

Ela cospe fora na cara de seu marido velho, barbudo e fedorento o protótipo de amor bruto que ele soube lhe dispensar. Amores perros de Iñarritu.
Também são amores, apesar de diferentes em forma.
Não dizem que os brutos também amam?
[ O fio da história: ]

Eis que então um outro chega, jovem que é, e roça sua perna desnuda nas dela, desnudas, sob o nariz do marido, ocultas por uma mesa de pau ordinário, breakfast time.
Ordinárias tábuas que erguem a alcova adúltera, onde ela busca redenção
E, acredite-me, romantismo. Dinner time.
Uma vida esperando por um beijo furtivo entre as prateleiras da cozinha.
Um shake-hands dissimulado, que transforma-se em penetrações de sexual moralidade,
De cândida imoralidade e de amoral possibilidade de julgamento desapaixonado,
Sim, assim que a noite cai.
O marido é bruto, mas é velho, cansado. Ele precisa dormir cedo.
Laços desfeitos, buscas pela felicidade, insatisfações. Cantos piegas e dolorosos,
Segredo que outrem guarda a sete chaves e que o poeta, temerário, ousa desvendar:

-Eu mal lhe conheço,
Mas eu lhe desejo tanto!

O diáfano rosto da mulher do marinheiro. Austeridades.
Um desejo controlado de desvendar o que se esconde por detrás de um véu proibido, púrpura como o sangue que escorre-lhe, por vezes, por dentre as pernas.
Os anos da juventude que não morrem por inteiro.
As lágrimas não tem cor, por isso não deixam marcas no mundo.
O seu jovem Adam, objeto e instrumento de descoberta, libertação e pecado.
Penalidade e ameaça. O preço do que é pecado, ainda que pecado seja apenas uma palavra suja e inexpressiva.
[ Contextualizo-me, leitor: ]
Um segredo afinal. O que a mulher do marujo guarda, o que o jovem Adam guarda,
O que sabe deus quem mais lá anda guardando também.
Meandros recônditos, soturnos. Silvos de serpente e maldições os protegem.
Segredos. O peso que encerra a língua na boca,
A tranca que aprisiona a palavra.
Calabouços onde a alma se tranca por própria vontade.

[ ? ]




[ Nota: Texto livremente inspirado no filme Young Adam, de David Mackenzie, com Tilda Swinton e Ewan McGregor e na canção Secret, da banda americana Maroon Five, encontrada no álbum Songs About Jane. ]
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Por Raphaël Crone.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Enfado .

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Tem uma hora em que você se cansa de insistir.
Se o redondo deveria ser quadrado e não deixa de ser redondo,
A força certamente não há de ser útil para enquadrá-lo.
Palavras repetidas tornam-se mortalmente enfadonhas,
Profundamente dolorosas, como lacerações de espadachim.
O tempo, que é senhor das coisas do homem e de deus,
(Que não mata o Verbo e que aprimora o verbo)
Encarrega-se de aclarar os erros
E coroar com a razão os justos.
A paciência nunca deixa de ser virtude sábia, pois.

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Por Raphaël Crone.

domingo, 15 de março de 2009

O Meu Pai

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Papai era muito rigoroso quando era jovem.
Jovem de 52, por que quando eu nasci ele já tinha 52 anos.
Ele é meu avô, pai do meu pai.
Este sempre morou longe e não me criou,
Apesar de termos contato frequente.
Papai agora tem 75, quase 76. Ele se tornou um velhinho bem afável.
Conversador e contador de "causos", coisas da idade, creio.
Me ama de um modo assombrosamente aberto
E eu amo ele em troca. Amo ele, sem pensar na gramática ruim.
Ele trabalhava na fazenda da família com a minha avó.
Ele está cansado e cheio de dores.
Outro dia, ele caiu de bicicleta na rua, quase foi atropelado.
Eu senti como se quem tivesse caído fosse eu.
Mas ele é forte também. Às vezes penso que até mais forte que eu.
Ele me ensina a ser homem. A ser digno e direito.
Ele me fez o que sou e me faz melhor a cada dia.
Ele me é a forma humana do que significa ser um bom exemplo.
Um orgulho maior que eu, pequeno que ainda sou ao lado dele.

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Por Raphaël Crone.

sábado, 14 de março de 2009

Um Romance de Eternidade.

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[ Viver é etecetera. ] * [ Guimarães Rosa ]

[ Tu tens um medo:/Acabar./ Não vês que acabas todo o dia./ Que morres no amor./ Na tristeza./ Na dúvida./ No desejo./ Que te renovas todo o dia./ No amor./ Na tristeza./ Na dúvida./ No desejo./ Que és sempre outro./ Que és sempre o mesmo./ Que morrerás por idades imensas./ Até não teres medo de morrer./ E então serás eterno. ] * [ Cecília Meirelles ]


Eu vejo a vida passar devagar quando me deito em seus braços.
Quando eu toco a sua pele nua e quando sinto o seu hálito junto à minha face.
Quando encosto meus lábios nos seus.
Quando sinto o envolver dos seus braços e o calor do seu corpo.
Eu sinto a vida me tornar mais moço quando conversamos sobre tudo - ou nada.
Quando planejamos o ano que vem e o que vamos comer no jantar.
Eu me pego supreendentemente emocionado.
Eu o observo enquanto dorme, sua calma e seu sorriso bobo.
E sei que você também me observa, quando durmo eu.
Percebo quando no meio da noite você me manda ir mais para o canto da cama
Porque eu estou lhe empurrando demais
E percebo quando, minutos depois, você me cobre e me beija, dizendo que me ama.
Finjo que durmo, mas escuto,
E dou pulos de alegria, ainda que sonolento, em meu coração apaixonado.
Nosso dias de novidade e nossas noites. Arroubos e melancolias.
Eu amo ser você e amo o modo como você me é.
Você é o meu coraçãozinho, ja disse outrora.
Amando como o amo, porém, nunca é demais repetir.

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Por Raphaël Crone.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Missa de Domingo.

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[ “Todos os deuses são um deus”, disse ela, então como já dissera muitas vezes antes, e como eu repeti para as minhas noviças inúmeras vezes, e como toda sacerdotisa, depois de mim, há de dizer novamente, “e todas as deusas são uma deusa, e há apenas um iniciador. E cada homem a sua verdade, e Deus com ela”. ] * [ Marion Zimmer Bradley ]



Não costumo frequentar as missas.
Não sou católico e nem mesmo sou cristão.
Mas como é sabido desde que o mundo é mundo
E onde há sabedoria se sabe,
Deus é Deus onde quer que estejamos
Independente do nome pelo qual o nomeamos
E a Mãe é sempre a Mãe, seja ela chamada de Maria ou Cibele.
Morando em uma cidade pequena, próxima a uma grande e antiga catedral,
Gosto de ir à missa de vez em quando.
Isso de certa forma sacia uma voz dentro de mim.
É estranho ver como um culto aparentemente morto,
Cheio de repetições e pessoas perdidas
No momento de entoar os cânticos e recitar os versos
Sem saber quando devem se sentar ou levantar,
Pode falar à alma, quando se busca ouvir com atenção o que ele sussurra.
O Pai é o Pai e a Mãe é a Mãe e eles habitam em corações, não em templos humanos.
Eles são maiores que nossa engenharia. E ainda assim, onde o invocamos, eles estão.
Se os deuses são invenção humana ou se nós somos invenções deles,
Não me preocupa muito saber.
Acima de tudo, a figura do que é Mistério representa a esperança.
É muito triste para nós vivermos sem esperança.
A vida deve ser fria e o amanhã, solitário.
Algo em que acreditar pode ser um consolo, mesmo para mim que, como quase todo mundo, às vezes não acredito em nada.
Coisas da vida. Uma nova existencialidade, discussão dos séculos.
A religião, sim, em meu conceito pode ser um erro. Os deuses não.
O que eles respresentam não: a caridade, o amparo, a amizade e o amor.
Coisas que precisamos ontem e precisaremos amanhã.
O mundo cai: cabe a nós sustentá-lo com nossos braços,
Como os titãs sustentavam a Terra nos tempos ancestrais.
Mas, onde está a força dos nossos braços, Mãe?
O mar é grande e meu barco, pequeno. Mostre-me a esperança.
Descerre-me o véu além do Samhain e ornamente-me com as flores da primavera.
Imbolc e Ostara. O calor, as fogueiras: Beltane.
O arrebol: Litha e as colheitas, o pão de Lugh. Lughnassad. Mabon, a cornucópia.
E Samhain, que tudo recomeça, de onde viemos e para onde vamos.
O incenso e os sinos, a batina dos padres e suas danações e salvações.
As irmãs que queimaram por mim.
Não há ressentimento, apenas há a oração do menino.
Ele está em todos os corações e Ela responde por todos os nomes.
É neles que me apóio. Um consolo que encontro quando a noite vai alta
E quando tudo está escuro, quando o amanhacer ainda vai longe.
Existencialidades, novamente. Palavras da salvação.
O Senhor está no meio de nós e a Senhora com ele.
E onde eles estão, em segurança estou também,
Filho e menino que sou da esperançosa magia que é acreditar no que não se vê
E aguardar. Respostas. Um ato de contrição.
Requiescat in pace. O réquiem de cordas. O final e o recomeço.
A Lua vai subindo e seguindo sua rota. E está em meu coração.
Pensamentos ao som da música melancólica e do piano frio.
O cheiro da fumaça. Uma vida e outras muitas não lembradas.
Muitas recordações e eu, ainda aqui, sentado.
Muitas vidas em uma noite de domingo.

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Por Raphaël Crone.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Emboscada.

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[ Eu vou te perseguir,/ Te esfolar vivo,/ Mais uma palavra e você não sobreviverá./ Eu não vou aliviar sua dor,/ Eu não vou acalmar sua tensão./ Você vai esperar em vão,/ Eu não tenho nada que você queira. ] * [ Blue Foundation ]


Observo a noite densa e silenciosa por detrás de um poste ambíguo,
Luminária e esconderijo, eis a sua serventia.
A cidade é engolida pelas brumas, hora após hora,
Torna-se tão vaga quanto Silent Hill. Sangue e gás.
De onde sairá você, Pyramid Head?
De onde virá o primeiro golpe inesperado? Ainda não tenho olhos nas costas, evolução medíocre.
Um pouco de cultura pop em meio ao silencioso assombro da névoa.

Eu espreito a sua passagem como o gato espreita o rato,
Com os olhos em chamas, fascinantemente vidrados.
Ao longe, ouço alguns tons de música, sons de instrumentos sintéticos e de voz arrastada.
Canções de fantasmas melancólicas, eróticas, quase realmente amedrontadoras.
Drácula deve rondar esta região nesta noite.
Que ele não me encontre nesta rua hoje (calafrio, calafrio),
Não hoje, que procuro por você. É meu dia, não o seu e não o dele.

Coloco uma das mãos frias no bolso, acendo um cigarro.
Misturo a fumaça com a bruma, liquidificando a sensação de perda.
Uma perda gasosa, heterogênea,
Onde cada parte se esvai sem pedir licença ou sem dar um aceno de adeus.
Com a fumaça se esvai meu temor e minha memória,
A não ser a sua face, esta ainda permanece comigo.
Permanece, por que preciso reencontrá-la nesta noite.

Não há vozes, não há passos, não há definitivamente Pyramid Head.
Esta cidadezinha que assombro me assombra dramaticamente.
Gela-me a espinha e sussurra-me coisas incoerentes
Em ouvidos que nem eu sei onde exatamente ficam. Time to go.
Abandono a ambiguidade do poste que me oculta.
Agradeço aos fantasmas que cantaram para mim, que embalaram a minha espera.
Resigno-me e parto. É hora de lhe caçar. É hora de lamber os dedos novamente.

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Por Raphaël Crone.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Infanticídio.


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Os meus braços lhe enlaçam, Cinderella, Eles sugam a sua respiração por ciumenta tortura.
Os braços do Brahma, o lord das Índias,
Os um milhão de olhos com os quais eu lhe observo,
As previsões do meu novo guru, que me aprisionam em um êxtase imaginário.
O fogo sagrado.
O trem de ferro que corta as ruas tomadas por elefantes brancos,
O que conduz a donzela mais bela, rameira notória.
A profunda sensação de possibilidade, efêmera, contraditória,
Não o começo da felicidade, mas a felicidade em si,
Morta e pisoteada em alguma ruela insalubre.
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-O amor não é feito de sonhos, Cinderella.
O amor não é feito de desconfianças.
A chaga que lhe matou é a mesma que ulcera quase o mundo todo.
É a gota fria que apaga a luz da candeia,
O cesto que impede que o quarto seja aquecido pela chama da vela oculta sob ele.
O amor aniquilado, infanticídio.
Toda uma vida de possibilidades sob as patas do seu elefante branco, que não anda no trem de ferro.
-Seja cautelosa, Cinderella. Não seja Alice.
A Rainha Vermelha - figura do seu ciúme - está em nosso encalço, devorar-nos-ia se nos encontrasse.
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Não mate a criança, oh, não!
Misericórdia aos oprimidos. O amor é uma criança.
Não esfregue as mãos sujas, não macule a coma dourada com o escarlate véu que lhe tinge.
Um segundo para acreditar, um segundo para plantar,
Uma vida para segar as messes dos campos que estão sendo semeados.
-Não olhe para a frente, Cinderella! Feche os olhos por um instante.
Aqui o tempo passa, inexoravelmente e não se preocupa em corrigir os enganos.
Cabe a nós corrigí-los. O que é sina.
Não mate o infante, não beba do cálice amargo do seu ciúme.
Esta mágoa, este medo da felicidade não durará mais do que o tempo de sua queda penhasco abaixo.
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Reconstrua o templo de Afrodite, retire os escombros de seus portais.
Deite-se sobre o altar florido e deixe que o tempo leve seu suspiro embora.
A criança tomará um cutelo afiado,
Com um movimento dará cabo de tudo. Morte de Cinderella.
A vertigem que precede a imperiosa necessidade de crescer lhe porá em pé novamente.
A surda confiança, de olhos de lince.
A taça da qual o amor-criança bebe. O veneno que não o mata.
O antídoto. Feast on scraps.
O amor não é feito de sonhos, mas ele voa em suas asas etéreas.
O amor é feito de matéria sólida. Uma união tão necessária que chega a ser carne,
Uma cumplicidade tão intensa que chega a ser sangue.
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Até onde eu deverei ir, Baba? Um estado de graça,
Um estado de emergência. Quanto mais até que eu seja puro?
Ciúmes, morte de Cinderella. Ordinária morte evitável.
Eu luto contra as patas do elefante da rua.
Eu galopo o trem de ferro e ornamento os cabelos da pródiga filha.
Eu estudo seu sorriso e mergulho em cada lágrima vertida,
Eu a faço renascer. Branca necromancia sentimental.
Não admito, não há fim para a jornada que percorremos.
Um banquete de migalhas, varridas para debaixo do tapete:
Morte de Cinderella, queda de Avalon.
Um amor embalado com carinho, onde não há final.
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Um momento se passa. A tempestade se acalma.
O mundo está em seu lugar.
Mas - espanto - onde está Cinderella?

[ FOTO: ]* Raphaël Crone - Dezembro/ 2008 .

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Por Raphaël Crone.

domingo, 30 de novembro de 2008

Sado - Vol. 2.

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[ Tous les jours des fêtes,/ Oui c'est excentrique./ Je dis: "Vive la fête!"/ Pour etre héroïque. ] * [ Els Pynoo ]



Tre' bien. 120 dias em Sodoma com Sade.
Deve ser divertido!
Viva a festa, mon garçon!
O que pode haver de mais excitante na vida
Do que 120 dias em Sodoma com Sade?

___
Por Raphaël Crone.

sábado, 29 de novembro de 2008

Versos Sujos.

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[ Você pode me tocar se quiser,/ Mas você não pode parar. ] * [ Shirley Manson ]


Em minha pele jovem, o desespero.
O frenesi, a necessidade, a ânsia
Por uma possessão pervertida e absoluta.
Inimaginável.
Por seus braços pervertidos e absolutos,
Em todas as formas, em todos os sentidos,
Inimaginavelmente.

___
Por Raphaël Crone

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Percepção de Minuto.


[ Tem dias que a gente se sente/ Como quem partiu ou morreu,/ A gente estancou de repente/ Ou foi o mundo então que cresceu. ] * [ Chico Buarque de Holanda ]
[ O mundo é bão, Sebastião. ] * [ Nando Reis ]



A cada dia, menores.
O mundo maior, mais gordo, mais ávido.
E nós, a cada dia menores.
Miedo.

___
Por Raphaël Crone.

Ventre Afora.


[ A maior felicidade é quando a pessoa sabe porque é que é infeliz. ] * [ Fiodor Dostoiévsky ]

[ Lágrimas não são argumentos. ] * [ Machado de Assis ]



Ninguém nunca nos garantiu contentamento pleno.
Não consta no contrato de vida,
Que aliás, nenhum de nós assinou deliberadamente.
Argumentamos conforme podemos.
Justificamo-nos fisiológicamente.
Sofrivelmente, lutamos debalde uma luta vã.
E nos resta apenas perguntar, afinal:
Alguém nos amará quando formos velhos demais para continuar essa carreira?

_____
Por Raphaël Crone.

domingo, 23 de novembro de 2008

Um Encontro Interior.

[ Escrevo sobre isolamento e ternura, a perturbadora ambivalência nossa, frivolidade e covardia, às vezes a graça e o riso. ] * [ Lya Luft ]



E nesta ambivalência eu perdi a mim mesmo.
Eu perdi. Eu sei.

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Por Raphaël Crone.

sábado, 22 de novembro de 2008

Inconstância.

Se todo animal inspira ternura,
o que houve, então, com os homens?
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(Guimarães Rosa)


"Definitivamente eu não o compreendo, Raphaël.

Eu compreendi o seu pai e a sua tia,
Mas a você, eu nunca consegui compreender."
Palavras da minha avó.
Nem eu me compreendo, sendo sincero.
Alguém aí arrisca um palpite?
Compreensão pode ser para os simples. E quem não é simples?
Pode ser complexo, e complexidade rima com humanidade.
Um processo de compreender outrem pode ser muito dispendioso.
Pode ser eterno
E a eternidade não nos é garantida.

Eu gostaria de me compreender um pouco mais, de qualquer forma.
Saber porque estou tão bem e logo depois tão mal.
Porque amo e odeio com intensidades tão desmesuradas.
Porque vivo em tamanha dubiedade moral.
E ao mesmo tempo, desisto de prescrutar tais questões profanas.
Gosto-me assim, complicado, egocêntrico, neurótico e imperfeito.
Perfeição é para os fracos.
E onde está a minha força?
Eis o que eu me pergunto, em seguida, então.

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Por Raphaël Crone.

Um Momento de Elegância.

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja a ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!
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(Raimundo Corrêa)


Lève toi c'est décidé,
Laisse-moi te remplacer,
Je vais prendre ta douleur.

Doucement sans faire de bruit,
Comme on réveille la pluie,
Je vais prendre ta douleur.
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(Camille Dalmais)

Toque-me, mais profundamente,
Alcance a razão do meu afeto, mais, mais!
Você pode fazer isso, eu sei.
Alcance a razão do meu afeto,
Vá até onde ninguém mais foi antes,
Desbrave-me, maravilhe-se!
Maravilhe-se com as minhas delícias ocultas
E com minhas tristezas não-confidenciadas.
Toque o que há de mais esplendoroso em mim,
Arranque, sim, arranque outro pedacinho de mim, meu amor!
Leve-o, leve-o!
Não há de me fazer tanta falta, eu penso.
Tome a minha dor, saboreie a minha carne,
É vermelha e úmida, assim como a carne do gado.
Verte sangue,
Força da vida, você há de conseguir alguma vantagem bebendo o meu sangue.
Minha beleza? Minha inteligência? Meus versos?
Ou apenas a minha dor.
Ma douleur.
Venha, tome a minha dor, também.
É tão mais elegante. Engula-a com champagne.
É tão mais elegante!

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Por Raphaël Crone.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Uma Fogueira Para Beltane.

Erotica, romance.
Meu nome é Dita,
Serei sua anfitriã essa noite.
Eu gostaria de colocar você em transe.

Se eu pegar você pelas costas
Entrarei em sua mente.
Quando você menos esperar,
Quando você tentar rejeitar,
Se eu estiver explosiva,
Vou tratá-lo como uma criança.
Você irá à loucura.
Deixe minha boca ir onde ela quer
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Erotic, erotic.
Ponha suas mãos por todo o meu corpo.
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(Madonna)


Toque minha pele jovem com seus lábios,
Deixe-me sentir sua língua por sobre minha tez nua, sem um pêlo.
Em cada arrepio, em cada sussurro, deixe-me vivenciar o segredo mais profundo da existência.
Leve-me, leve-me, apresse-se em conduzir-me para onde a vida começa.
Deixe-me entender o mistério que uniu meu pai e minha mãe em um ato sagrado e profano,
A santa e o pecador, o deus e a meretriz.

Caminhe com sua língua por sobre meus mamilos intumescidos,
Toque meu abdome e abrace-me violentamente. Enrole-se em torno de mim e erga-me voluptuosamente.
Mostre-me por onde devo ir.
Erotica. Ponha as suas mãos por todo o meu corpo.
Eu quero estar onde toda a vida começa.
Mostre-me o caminho. Eu sou um menino mau.
Seja indulgente, ensine-me, adestre-me.
Apenas deixe-me estar onde toda a vida começa.
Onde deus se revela ao homem.
Onde o homem pode ser deus.

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Por Raphaël Crone.