terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Volta.
[ Caríssimo,
---Tenho a certeza de que estou novamente a enlouquecer: sinto que não posso suportar outro desses terríveis períodos. E desta vez não me restabelecerei. Estou a começar a ouvir vozes e não me consigo concentrar. Por isso vou fazer o que me parece ser o melhor.
---Deste-me a maior felicidade possível. Foste em todos os sentidos tudo o que qualquer pessoa podia ser. Não creio que duas pessoas pudessem ter sido mais felizes até surgir esta terrível doença. Não consigo lutar mais contra ela, sei que estou a destruir a tua vida, que sem mim poderias trabalhar. E trabalharás, eu sei. Como vês, nem isto consigo escrever como deve ser. Não consigo ler.
---O que quero dizer é que te devo toda a felicidade da minha vida. Foste inteiramente paciente comigo e incrivelmente bom.
---Quero dizer isso — toda a gente o sabe. Se alguém me pudesse ter salvo, esse alguém terias sido tu. Perdi tudo menos a certeza da tua bondade. Não posso continuar a estragar a tua vida.
---Não creio que duas pessoas pudessem ter sido mais felizes do que nós fomos.
Virginia ]
Eu realmente odeio esta parte, mas ela se aproxima outra vez.
O mal dos poetas, o mal do século, o mal da morte.
Más-formações sentimentais, moralmente imprecisas, precisamente amorais.
A angústia, o aperto no meio da noite,
O terror noturno: o medo da solidão.
Você, que com braços tão vividamente amorosos me enlaçou outrora,
Você, que se preocupou com meu sono e meu apetite,
Você, que se fez um comigo; meu medo: onde está você agora?
A terrível bruma que toma conta da cidadela, o vôo rasante das harpias.
O som melancólico do piano e o som gutural da tuba,
Uma melodia candeciada e sepulcral, efemérides do que teve forma.
Esta deprimente onda que me varre, que me impede de deixar a cama,
Que não me permite pensar e nem escrever,
Que me faz fugir da luz do dia, que me faz chorar violentamente durante a noite.
Ela chega e toca meu ombro.
Sem pedir licença, ela adentra a casa, instala-se em minha alcova,
Faz uso dos meus objetos e lança sobre mim seu terrível encanto.
E eu me rendo a ela uma vez mais (a felicidade brinca de esconde-esconde comigo), leitor.
Deito-me ao lado do morcego negro, ele me abraça,
Eu gelo: tudo é entendimento e monotonia. Tudo é escuridão,
Sertões intransponíveis. Serestas mortas.
Eu odeio esta parte, mas ela me pertence. Devo alimentá-la, como bom pai.
Devo esperar a próxima primavera e por agora, apenas esperar.
Um novo dia onde eu possa voltar, uma nova volta,
Esperança que não existe, mas que, ainda assim, a minha imaginação não deixa de esperar.
[ INTRO: ] *Carta de Virginia Woolf a Leonard Woolf, adaptada por Michael Cunningham em seu livro, The Hours.
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Por Raphaël Crone.
sábado, 7 de fevereiro de 2009
Onde a Vida Começa.
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A exibição de um corpo nú. Os corpos caídos ao redor.
O teor e a teoria do que é instinto e animalidade.
O que ninguém aprende, o que é nato. Incontestável.
A exacerbação dos sentidos, a volúpia dos ânimos,
O arrebatamento das sensações.
O gozo vigoroso e as vigílias continuadas,
O que é sexo, o que é fogo, o que arde,
Posto que é chama,
O que se multiplica e povoa a Terra. Passatempus.
A busca cotidiana. O vício e a virtude,
Antítese do que salva e de quem é Salvador,
Entrega feita pelas mãos do que é o Gênesis.
Luxúria, libidinosos momentos de união concuspicente,
O auge da mágicka e o encontro do amor.
Expressão de afeto e paixão desenfreada.
Eis o que é sexo: a vida, contínuo movimento,
A beleza da existência e o amor que se faz verbo e carne
E que vem habitar entre nós.
[ FOTO: ] *Madonna: "SexBook ", publicado em 1992, em suporte ao álbum "Erotica". Fotografia de Steven Meisel.
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Por Raphaël Crone.
Au Maître Munch.
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Existencialidades tétricas. / A erupção que acontece quando menos se espera, / A expressão mais angustiante do que é ser humano. / O caos interior, o domínio dos titãs. / O mergulho nos mundos de Mnemosine e a sega da foice de Hades. / A viagem além-Estige. / Um momento de desespero, um norueguês cosmopolita, / Um momento onde toda a humanidade para em virtude de uma semelhança universal: / A insuficiente segurança que é tentar se ocultar em meio à insegura escuridão da vida.
[ FOTO: ] * O Grito, de Edvard Munch (1893).
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Por Raphaël Crone.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Retrato de Uma Queda.
Contemplei segundo a segundo a forma como você caiu.
Fui a testemunha mais íntima do modo como se operou a sua queda.
Vi suas pernas não serem fortes o suficiente para amparar o peso de seu corpo.
Vi o seu resvalar, o seu tropeçar,
O desesperado movimento dos seus braços para segurar o que já não tinha mais segurança neste mundo.
Vi o estrondoso silêncio e o abafado gemido produzidos pela vergonha de um momento de humanidade.
Senti em minha boca os fios de sangue que escorreram dos rasgos abertos em sua pele molhada.
O saibro de sangue, o amargor do ferro. Hemoglobina. Essências.
Permaneci impassível, imóvel, observei em sequência a chuva da rua lavar sua ferida e levar o seu sangue esgoto abaixo.
Não o ajudei e não o consolei. Não ajuntei seus livros espalhados
E não procurei secar seu maço de cigarros ensopados, inúteis agora.
Não evitei quando pisei seus óculos e senti um frêmito misto de agonia e gozo quando ouvi seus aros partirem-se sob meus pés confortavelmente calçados.
Não senti ódio e nem alegria e nem me rejubilei ou lamentei.
Impassivelmente silente e mortalmente imóvel.
Testemunhar: eis o significado do verbo que aqui não expressa ação, mas inatividade.
Nenhuma sombra de vida ou movimento de minha parte,
A vida relutantemente movimentando-se em você.
Antes de virar as costas ainda tive tempo de ver: o levantar-se, o ato de recompôr-se discretamente.
Você passou a mãos pelos cabelos desalinhados, procurou por seus óculos e soltou uma indivisível exclamação de lamento ao vê-los partidos no chão.
Limpou as roupas sujas, lambeu o sangue dos braços agora nús, pela licença que as mangas da camisa lhes concederam,
Empilhou os livros um a um e colocou-os sob o braço protetor e desprotegido de homem adulto.
Ignorou os cigarros imprestáveis e deu uma última olhada para a cena.
Suspirou: foi tudo o que eu pude ouvir, derradeira queixa.
Saiu, vagarosamente, direção oposta à minha e não olhou para trás.
Também eu apenas relanceei uma última vistoria, não sem um lampejo de sorriso nos lábios.
Vida engraçada! Não pude deixar de pensar sobre isto mais tarde.
Não pude deixar de compôr este ingênuo e soturno retrato,
O retrato de sua soturna e ingênua queda.
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Por Raphaël Crone.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Sua Significação.

O modo como você muda o meu dia: simplesmente fantástico.
De triste a exultante, de fraco a super-homem,
De tépido a muito quente,
De desconsolado a completamente esperançoso.
Meus pensamentos mais soturnos ganham asas e partem,
Muito distante posso divisar suas formas,
Outrora tão próximas e incômodas.
A dor mais pungente é consolada e remediada,
A ferida mais profunda deixa de verter sangue.
Você é a minha alegria e a minha salvação.
A quem temerei?
Seus braços e seu sorriso são a canção mais doce que alguém já entoou.
Você é o meu paraíso, feito para mim,
Privativo e escondido, onde não sou intruso ou estranho.
Minha praia de cinema, meu oceano particular,
Minha montanha mais alta e meus dias de impassível felicidade.
Me perco em seu abraço e durmo ouvindo o seu coração.
Me perco em outra dimensão e viajo com o povo das fadas,
Acordo e vejo um sonho feito real. Você dissipa a angústia
E sacia a vontade inclemente.
Alimenta o meu melhor e me faz ser bom, como você o é para mim.
Palavras não poderiam ser completas, para dizer o que meus olhos dizem a você.
Todos os clichês tornam-se inevitavelmente necessários e permitidos.
Você é o céu. Meu paraíso.
Definitivamente a quebra do meu submundo, a morte de Hades.
A ruína da escuridão e a luz primordial. A poesia em mim.
Você é o tudo. O imprescindível. O necessário.
Meu francês e meu espanhol, minha inocente virtude.
Objeto de zelo e adoração, meu pedestal e meu humano peregrino-companheiro.
Eu o beijo outra vez. Sigo beijando-lhe com lábios e lágrimas,
Pois me mostrou o amor mais belo, o sentimento mais puro
E a verdade mais impressionante que ninguém jamais poderia mostrar-me aqui.
[ FOTO: ] * Raphaël Crone - Dezembro/ 2008.
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Por Raphaël Crone.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Um Instante Impressivo.
Vi um hippie-chic na rua hoje, encontro estranho.
Ele não fazia malabarismos e não vendia artesanato.
Vestia Giorgio Armani e exibia um anel brilhante em seu mindinho.
Usava uns óculos alternativos e carregava um violãozinho surrado.
Olhou-me com uma fome animal, quando passou por mim,
Luxuriosa, quase desesperadora.
Não lhe dei nenhuma moeda. Não lhe vi os olhos.
Vi-o mais tarde: acho que ele vendeu o tal anel para almoçar aquele dia,
Ou deixou-o em alguma alcova, quem sabe,
Alguma que eu nunca saberia onde encontrar.
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Por Raphaël Crone.
Emboscada.
Observo a noite densa e silenciosa por detrás de um poste ambíguo,
Luminária e esconderijo, eis a sua serventia.
A cidade é engolida pelas brumas, hora após hora,
Torna-se tão vaga quanto Silent Hill. Sangue e gás.
De onde sairá você, Pyramid Head?
De onde virá o primeiro golpe inesperado? Ainda não tenho olhos nas costas, evolução medíocre.
Um pouco de cultura pop em meio ao silencioso assombro da névoa.
Eu espreito a sua passagem como o gato espreita o rato,
Com os olhos em chamas, fascinantemente vidrados.
Ao longe, ouço alguns tons de música, sons de instrumentos sintéticos e de voz arrastada.
Canções de fantasmas melancólicas, eróticas, quase realmente amedrontadoras.
Drácula deve rondar esta região nesta noite.
Que ele não me encontre nesta rua hoje (calafrio, calafrio),
Não hoje, que procuro por você. É meu dia, não o seu e não o dele.
Coloco uma das mãos frias no bolso, acendo um cigarro.
Misturo a fumaça com a bruma, liquidificando a sensação de perda.
Uma perda gasosa, heterogênea,
Onde cada parte se esvai sem pedir licença ou sem dar um aceno de adeus.
Com a fumaça se esvai meu temor e minha memória,
A não ser a sua face, esta ainda permanece comigo.
Permanece, por que preciso reencontrá-la nesta noite.
Não há vozes, não há passos, não há definitivamente Pyramid Head.
Esta cidadezinha que assombro me assombra dramaticamente.
Gela-me a espinha e sussurra-me coisas incoerentes
Em ouvidos que nem eu sei onde exatamente ficam. Time to go.
Abandono a ambiguidade do poste que me oculta.
Agradeço aos fantasmas que cantaram para mim, que embalaram a minha espera.
Resigno-me e parto. É hora de lhe caçar. É hora de lamber os dedos novamente.
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Por Raphaël Crone.
