---
[ Je ne rêve plus,/ Je ne fume plus,/ Je n'ai même plus d'histoire./ Je suis sale sans toi,/ Je suis laide sans toi,/ Comme une orpheline dans un dortoir./ Je n'ai plus envie de vivre ma vie,/ Ma vie cesse quand tu pars,/ Je n'ai plus de vie et même mon lit,/ Se transforme en quai de gare,/ Quand tu t'en vas./ Je suis malade,/ Complètement malade,/ Comme quand ma mère sortait le soir,/ Et qu'elle me laissait seul avec mon désespoir,/ Je suis malade,/ Parfaitement malade,/ T'arrives on ne sait jamais quand,/ Tu repars on ne sait jamais où,/ Et ça va faire bientôt deux ans,/ Que tu t'en fous. ] * [ Serge Lama ]
Observava o mundo lá fora pela janela do meu apartamento,
Fim de tarde.
As sombras da noite passavam a envolver tudo o que encontravam, o animado e o inanimado,
Como um manto de donzela que ocultava as insinuantes formas do dia que usado foi,
E que findava-se indolente.
Nenhuma luz se achava em nenhum recinto cá dentro,
A não ser três velas mortiças que queimavam em um candeeiro sobre a cauda do piano mudo no canto da sala.
Uma luz baça, uma melancolia vívida. Coisas do crepúsculo.
Ouvia a água deslizar pelas torneiras, enchendo a banheira há alguns metros dali.
Sentia um cheiro doce de algum perfume que eu não usava,
Quem sabe o que vinha das rosas do jardim de inverno.
Quem sabe, o cheiro da noite fria que, trotando, aproximava-se do mundo cá embaixo.
[ ... ]
Observei-me por um minuto na vidraça da janela:
Jovem alto e magro, cabelos longos despenteados, um rosto onde se lia outrora um misto de luxúria e juventude exuberante
E onde agora se lia apenas uma distância substancialmente material. Corpórea.
Uma saudade noturna, que Frédérich Chopin outrora tentou transformar em canção.
Observei minha pele alva e meus músculos firmes,
Toquei-me e senti frio. Um movimento decidido contraiu meu abdôme
E um calafrio transpassou minha espinha rija.
[ Je suis malade, complètement malade,
Comme quand ma mère sortait le soir
Et qu'elle me laissait seul avec mon désespoir. ]
Embore goze de perfeita saúde do corpo, estou doente cá dentro.
Je suis malade, complètement malade.
Este vazio aberto pela distância entre você e eu é como uma perfuração de adaga,
Um cimitarra persa que abre minhas entranhas românticas: agonie, agonie.
[ Eu estou doente, completamente doente,
Como quando a minha mãe saía à noite
E me deixava sozinho com o meu desespero . ]
O contraste de minhas calças escuras com o baço de meu corpo
E os fios desalinhados de cabelo caindo sobre meus olhos,
Criavam como que um belo fantasma de Álvares de Azevedo:
Noites na taverna, Macário.
Deixei os cortinados e vidraças,
Sentei-me ao piano mudo. Falemos, pois.
O som triste da canção alçou vôo dos meus dedos,
Encheu a sala, ultrapassou os véus das cortinas,
Adentrou os cômodos silentes,
Misturou-se à agua tépida que rolava das torneiras no banheiro regelado.
Quis tornar-me em canção, tentando alcançá-lo onde estivesse:
Fiz-me harpejo, apogiatura, fiz-me movimento de dedos coordenadamente desesperado.
Escalas ascendentes, descendentes. Diatônicas.
Ora abafado pelos pedais, ora prolongado. Estiquei-me e reduzi-me.
Piano, pianissimo. Forte, molto forte.
Mon rendez-vous, chéri.
Procurei tornar-me Rapsódia de Liszt, Movimento triunfante de Brahms,
Fuga de Bach.
Tornei-me Minueto e dos tristes. Faltou-me força para continuar.
A luz mortiça mal iluminava meus olhos e por um instante meus dedos calaram-se.
Negaram-se a prosseguir, inútil que era.
Continuei sentado na banqueta dura, desconsolado como criança de castigo.
O pensamento no nada e o desejo, que sabia muito bem por onde andava.
Andrajos de mim. Trapos exuberantemente sentimentais.
Levantei-me. Tirei as calças, joguei-as por sobre a poltrona e dirigi-me ao banheiro.
Entrei na água morna e mergulhei em mim mesmo.
Adentrei mais fundo em meu mundo submerso, o mundo de Raphaël.
Permaneci assim por horas e quando o frio da noite tornou a água incômoda,
Levantei-me. Penteei os cabelos molhados, acendi um cigarro malcheiroso.
Lancei mais uma olhada ao meu redor. Tive fome.
Pensei comigo uma brevidade. Hora de comer. Enxuguei a única lágrima frouxa que pendeu de meus olhos frouxos
E saí, batendo a porta. Minha Hégira.
Lancei-me para a noite escura e fria, mais escura que meu apartamento,
Não sei se mais fria que o mundo onde me escondi.
Interiores vampirescos. Funestos.
E pensar que apenas um toque seu me faria voar daqui.
[ ... ]
[ Nota: Os trechos destacados pertencem à canção Je Suis Malade, de Serge Lama. ]
___
Por Raphaël Crone.
segunda-feira, 25 de maio de 2009
sábado, 23 de maio de 2009
C'Est Manque.
---
[ Chanson juste pour toi,/ Chanson un peu triste, je crois,/ Trois temps de mots froissées,/ Quelques notes et tous mes regrets,/ Tous mes regrets de nous deux,/ Sont au bout de mes doigts,/ Comme do, ré, mi, fa, sol, la, si, do./ C'est une chanson d'amour fané,/ Comme celle que tu fredonnais,/ Trois fois rien de nos vies,/ Trois fois rien comme cette mélodie,/ Ce qu'il reste de nous deux,/ Est au creux de ma voix,/ Comme do, ré, mi, fa, sol, la, si, do./ C'est une chanson en souvenir/ Pour ne pas s'oublier sans rien dire/ S'oublier sans rien dire. ] * [ Carla Bruni ]
Sinto saudade dos meus pais, sempre tão carinhosos comigo.
Sempre me apoiando, me suportando, me impulsionando.
Tive que deixá-los e vir pra longe,
Seguir a minha vida, seguir o meu amor.
Não me arrependo, pois tenho-os cá comigo,
Na grande e densa profundidade que habita meu peito,
Mas, inevitavelmente, sinto uma saudade imensa deles.
Na maior parte do tempo, ela é inebriada pelas ocupações cotidianas
E dissimulada sob o peso das horas ativas.
Porém momentos há em que ela põe a cabeça pra fora desta imensidão cá dentro
E noticia sua presença - Eis-la! Olá, companheira!
Aconteceu hoje. Um telefonema, conversação sentimentalmente prática,
Preocupações com minha alimentação e minhas finanças,
Necessidade de saber se estou bem cá distante de lá onde nasci.
Depois que o telefone se calou, eu chorei:
Emotivamente abalado, chorei como chora criança.
Apenas um cachorrinho testemunhou minhas lágrimas e tentou me consolar,
Lambendo meu pescoço.
Levantei-me, fumei um cigarro melancólico e fui cuidar da vida.
Inegavelmente, eles são o meu tesouro.
Eles são a melhor parte do que hoje habita esta escuridão cá dentro.
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Por Raphaël Crone.
[ Chanson juste pour toi,/ Chanson un peu triste, je crois,/ Trois temps de mots froissées,/ Quelques notes et tous mes regrets,/ Tous mes regrets de nous deux,/ Sont au bout de mes doigts,/ Comme do, ré, mi, fa, sol, la, si, do./ C'est une chanson d'amour fané,/ Comme celle que tu fredonnais,/ Trois fois rien de nos vies,/ Trois fois rien comme cette mélodie,/ Ce qu'il reste de nous deux,/ Est au creux de ma voix,/ Comme do, ré, mi, fa, sol, la, si, do./ C'est une chanson en souvenir/ Pour ne pas s'oublier sans rien dire/ S'oublier sans rien dire. ] * [ Carla Bruni ]
Sinto saudade dos meus pais, sempre tão carinhosos comigo.
Sempre me apoiando, me suportando, me impulsionando.
Tive que deixá-los e vir pra longe,
Seguir a minha vida, seguir o meu amor.
Não me arrependo, pois tenho-os cá comigo,
Na grande e densa profundidade que habita meu peito,
Mas, inevitavelmente, sinto uma saudade imensa deles.
Na maior parte do tempo, ela é inebriada pelas ocupações cotidianas
E dissimulada sob o peso das horas ativas.
Porém momentos há em que ela põe a cabeça pra fora desta imensidão cá dentro
E noticia sua presença - Eis-la! Olá, companheira!
Aconteceu hoje. Um telefonema, conversação sentimentalmente prática,
Preocupações com minha alimentação e minhas finanças,
Necessidade de saber se estou bem cá distante de lá onde nasci.
Depois que o telefone se calou, eu chorei:
Emotivamente abalado, chorei como chora criança.
Apenas um cachorrinho testemunhou minhas lágrimas e tentou me consolar,
Lambendo meu pescoço.
Levantei-me, fumei um cigarro melancólico e fui cuidar da vida.
Inegavelmente, eles são o meu tesouro.
Eles são a melhor parte do que hoje habita esta escuridão cá dentro.
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Por Raphaël Crone.
quarta-feira, 20 de maio de 2009
Mon Âme.
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[ Tu es ma came,/ Mon toxique, ma volupté suprême./ Mon rendez-vous chéri et mon abîme,/ Tu fleuris au plus doux de mon âme./ Tu es ma came,/ Tu es mon genre de délice, de programme./ Je t'aspire, je t'expire et je me pâme,/ Je t'attends comme on attend la manne./ Tu es ma came,/ J'aime tes yeux, tes cheveux, ton arôme./ Viens donc là que j'te goûte que j'te hume,/ Tu es mon bel amour, mon anagramme./ Tu es ma came,/ Plus mortelle que l'héroïne afghane,/ Plus dangereux que la blanche colombienne,/ Tu es ma solution, mon doux problème./ Tu es ma came,/ A toi tous mes soupirs, mes poèmes,/ Pour toi toutes mes prières sous la lune,/ A toi ma disgrâce et ma fortune./ Tu es ma came,/ Quand tu pars c'est l'enfer et ses flammes,/ Toute ma vie, toute ma peau te réclamenton,/ Dirait que tu coules dans mes veines./ Tu es ma came,/ Je me sens renaître sous ton charme,/ Je te veux jusqu'à en vendre l'âme,/ À tes pieds je dépose mes armes./ Tu es ma came, tu es ma came. ] * [ Carla Bruni ]
Eu sussurro à francesa em seus ouvidos,
Enquanto um violão lamurioso geme perdido no espaço:
[ Você é meu vicio, você é meu vicio.
O meu produto tóxico, a minha volúpia suprema.
O meu encontro preferido e meu abismo.
Você até faz a minha alma mais doce. ]
Você até faz a minha alma mais doce.
Eu mordisco a sua orelha e sinto que o eu-você nos arrepiamos.
Eu toco o seu peito e encontro um mamilo:
Você, o meu vicio.
À francesa, eu "francesamente" prossigo meu lamento:
[ Você é meu vicio. É o meu tipo de delicia, de programa.
Eu te aspiro, eu te expiro e desmaio.
Eu te espero como se espera o maná.
Você é meu vicio,
Gosto dos teus olhos, dos teus cabelos, do teu aroma.
Venha, então eu te enrolo e eu te fumo.
Você é o meu belo amor, o meu anagrama.
Você é meu vicio,
Mais mortal que a heroína afegã,
Mais perigoso que a cocaína colombiana.
Você é a minha solução, o meu doce problema. ]
Eu me debruço sobre as suas costas nuas.
Eu aliso a sua pele como tecido, eu lambo a sua nuca como um gato,
Eu junto a nudez de minha pele à da sua,
Eu saboreio o silêncio e o sorriso malicioso que o seu rosto esboça,
Eu finjo aquietar-me, apenas para recomeçar,
Insistente:
[ Você é meu vicio,
A você todos os meus suspiros, os meus poemas.
Para você, todas as minhas orações e a lua.
A você a minha desgraça e a minha fortuna.
Você é meu vicio,
Quando vai embora, é como o inferno e as suas chamas,
Toda minha vida, toda minha pele te reclama,
Diria-se que você escorre nas minhas veias. ]
Eu me viro e lhe encontro, frente a mim,
Lábio a lábio, sua alva tez frente a minha alva tez,
Cesso as poesias, porque existe um momento,
Onde a vida começa,
Em que toda a poesia é vã, e silenciosa.
Eu lhe encontro dentro de mim e eu me encontro dentro de você.
Um vicio que me sustenta, que me sacia,
Que mata a minha fome e que inebria os meus sentidos.
Oh, mon dieu.
À francesa, ao final, eu recomeço.
Eu lhe canto com voz rouca e o violão recomeça também, ao longe,
Ainda perdido no tempo e no espaço,
Mas canta e eu o acompanho,
E você, infantilmente deitado em meus braços,
Em meio a lençóis desfeitos, me acompanha
E ouve (e sorri):
[ Você é meu vicio,
Eu te quero que até vendo a alma.
Aos teus pés eu jogo as minhas armas.
Você é meu vicio, você é meu vicio. ]
[ Nota: Os excertos destacados pertencem à canção Tu Es Ma Came, de Carla Bruni, encontrada no álbum Comme Si De Rien N'Etait. ]
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Por Raphaël Crone.
Eu sussurro à francesa em seus ouvidos,
Enquanto um violão lamurioso geme perdido no espaço:
[ Você é meu vicio, você é meu vicio.
O meu produto tóxico, a minha volúpia suprema.
O meu encontro preferido e meu abismo.
Você até faz a minha alma mais doce. ]
Você até faz a minha alma mais doce.
Eu mordisco a sua orelha e sinto que o eu-você nos arrepiamos.
Eu toco o seu peito e encontro um mamilo:
Você, o meu vicio.
À francesa, eu "francesamente" prossigo meu lamento:
[ Você é meu vicio. É o meu tipo de delicia, de programa.
Eu te aspiro, eu te expiro e desmaio.
Eu te espero como se espera o maná.
Você é meu vicio,
Gosto dos teus olhos, dos teus cabelos, do teu aroma.
Venha, então eu te enrolo e eu te fumo.
Você é o meu belo amor, o meu anagrama.
Você é meu vicio,
Mais mortal que a heroína afegã,
Mais perigoso que a cocaína colombiana.
Você é a minha solução, o meu doce problema. ]
Eu me debruço sobre as suas costas nuas.
Eu aliso a sua pele como tecido, eu lambo a sua nuca como um gato,
Eu junto a nudez de minha pele à da sua,
Eu saboreio o silêncio e o sorriso malicioso que o seu rosto esboça,
Eu finjo aquietar-me, apenas para recomeçar,
Insistente:
[ Você é meu vicio,
A você todos os meus suspiros, os meus poemas.
Para você, todas as minhas orações e a lua.
A você a minha desgraça e a minha fortuna.
Você é meu vicio,
Quando vai embora, é como o inferno e as suas chamas,
Toda minha vida, toda minha pele te reclama,
Diria-se que você escorre nas minhas veias. ]
Eu me viro e lhe encontro, frente a mim,
Lábio a lábio, sua alva tez frente a minha alva tez,
Cesso as poesias, porque existe um momento,
Onde a vida começa,
Em que toda a poesia é vã, e silenciosa.
Eu lhe encontro dentro de mim e eu me encontro dentro de você.
Um vicio que me sustenta, que me sacia,
Que mata a minha fome e que inebria os meus sentidos.
Oh, mon dieu.
À francesa, ao final, eu recomeço.
Eu lhe canto com voz rouca e o violão recomeça também, ao longe,
Ainda perdido no tempo e no espaço,
Mas canta e eu o acompanho,
E você, infantilmente deitado em meus braços,
Em meio a lençóis desfeitos, me acompanha
E ouve (e sorri):
[ Você é meu vicio,
Eu te quero que até vendo a alma.
Aos teus pés eu jogo as minhas armas.
Você é meu vicio, você é meu vicio. ]
[ Nota: Os excertos destacados pertencem à canção Tu Es Ma Came, de Carla Bruni, encontrada no álbum Comme Si De Rien N'Etait. ]
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Por Raphaël Crone.
terça-feira, 19 de maio de 2009
O Jovem Adam.
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[ Carro superaquecido,/ Pule para fora do meu banco,/ Para o lado da rodovia, querido./ Nossa estrada é longa,/ Sua influência é forte,/ Por favor, nunca desista.../ Eu sei que não te conheço,/ Mas te quero muito./ Todo mundo tem um segredo guardado,/ Mas será que é possível mantê-lo?/ Não, eles não conseguem!/ Dirigindo rápido agora,/ Não pense que eu sei ir devagar./ Onde você está agora?/ Eu o sinto por perto,/ Aí está você!/ Esfrie esses motores,/ Acalme esses jatos./ Eu te pergunto o quanto quente isso pode ficar/ E como você fará para secar essas gotas de suor.../ Lentamente você diz: "Eu ainda não cheguei lá". ] * [ Maroon 5 ]
Um segredo. Ella sopra em meus ouvidos uma corrente de outono, fria da noite:
[ Veja, poeta: uns pés de homem sob uma mesa, roçando umas pernas de mulher, mulher dum tal bruto marinheiro. ]
[ Pressuposto - Início da história: ]
A mulher - Ella - alta, cara limpa, magra e branca como a cera.
Uma miragem de Álvares de Azevedo, ultra-romântica.
Um minuto: como ultra-romântica, se ela come e mastiga a mágoa de não conhecer romantismo,
Posto que tal mimo foi-lhe negado?
[ Registro do poeta: Interrompo-me por um instante. A noite cai enquanto escrevo isto. Ouço um violão ao longe. E vejo fumaças de um bodoque. Ao longe. ]
Ela cospe fora na cara de seu marido velho, barbudo e fedorento o protótipo de amor bruto que ele soube lhe dispensar. Amores perros de Iñarritu.
Também são amores, apesar de diferentes em forma.
Não dizem que os brutos também amam?
[ O fio da história: ]
Eis que então um outro chega, jovem que é, e roça sua perna desnuda nas dela, desnudas, sob o nariz do marido, ocultas por uma mesa de pau ordinário, breakfast time.
Ordinárias tábuas que erguem a alcova adúltera, onde ela busca redenção
E, acredite-me, romantismo. Dinner time.
Uma vida esperando por um beijo furtivo entre as prateleiras da cozinha.
Um shake-hands dissimulado, que transforma-se em penetrações de sexual moralidade,
De cândida imoralidade e de amoral possibilidade de julgamento desapaixonado,
Sim, assim que a noite cai.
O marido é bruto, mas é velho, cansado. Ele precisa dormir cedo.
Laços desfeitos, buscas pela felicidade, insatisfações. Cantos piegas e dolorosos,
Segredo que outrem guarda a sete chaves e que o poeta, temerário, ousa desvendar:
-Eu mal lhe conheço,
Mas eu lhe desejo tanto!
O diáfano rosto da mulher do marinheiro. Austeridades.
Um desejo controlado de desvendar o que se esconde por detrás de um véu proibido, púrpura como o sangue que escorre-lhe, por vezes, por dentre as pernas.
Os anos da juventude que não morrem por inteiro.
As lágrimas não tem cor, por isso não deixam marcas no mundo.
O seu jovem Adam, objeto e instrumento de descoberta, libertação e pecado.
Penalidade e ameaça. O preço do que é pecado, ainda que pecado seja apenas uma palavra suja e inexpressiva.
[ Contextualizo-me, leitor: ]
Um segredo afinal. O que a mulher do marujo guarda, o que o jovem Adam guarda,
O que sabe deus quem mais lá anda guardando também.
Meandros recônditos, soturnos. Silvos de serpente e maldições os protegem.
Segredos. O peso que encerra a língua na boca,
A tranca que aprisiona a palavra.
Calabouços onde a alma se tranca por própria vontade.
[ ? ]
[ Nota: Texto livremente inspirado no filme Young Adam, de David Mackenzie, com Tilda Swinton e Ewan McGregor e na canção Secret, da banda americana Maroon Five, encontrada no álbum Songs About Jane. ]
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Por Raphaël Crone.
[ Carro superaquecido,/ Pule para fora do meu banco,/ Para o lado da rodovia, querido./ Nossa estrada é longa,/ Sua influência é forte,/ Por favor, nunca desista.../ Eu sei que não te conheço,/ Mas te quero muito./ Todo mundo tem um segredo guardado,/ Mas será que é possível mantê-lo?/ Não, eles não conseguem!/ Dirigindo rápido agora,/ Não pense que eu sei ir devagar./ Onde você está agora?/ Eu o sinto por perto,/ Aí está você!/ Esfrie esses motores,/ Acalme esses jatos./ Eu te pergunto o quanto quente isso pode ficar/ E como você fará para secar essas gotas de suor.../ Lentamente você diz: "Eu ainda não cheguei lá". ] * [ Maroon 5 ]
Um segredo. Ella sopra em meus ouvidos uma corrente de outono, fria da noite:
[ Veja, poeta: uns pés de homem sob uma mesa, roçando umas pernas de mulher, mulher dum tal bruto marinheiro. ]
[ Pressuposto - Início da história: ]
A mulher - Ella - alta, cara limpa, magra e branca como a cera.
Uma miragem de Álvares de Azevedo, ultra-romântica.
Um minuto: como ultra-romântica, se ela come e mastiga a mágoa de não conhecer romantismo,
Posto que tal mimo foi-lhe negado?
[ Registro do poeta: Interrompo-me por um instante. A noite cai enquanto escrevo isto. Ouço um violão ao longe. E vejo fumaças de um bodoque. Ao longe. ]
Ela cospe fora na cara de seu marido velho, barbudo e fedorento o protótipo de amor bruto que ele soube lhe dispensar. Amores perros de Iñarritu.
Também são amores, apesar de diferentes em forma.
Não dizem que os brutos também amam?
[ O fio da história: ]
Eis que então um outro chega, jovem que é, e roça sua perna desnuda nas dela, desnudas, sob o nariz do marido, ocultas por uma mesa de pau ordinário, breakfast time.
Ordinárias tábuas que erguem a alcova adúltera, onde ela busca redenção
E, acredite-me, romantismo. Dinner time.
Uma vida esperando por um beijo furtivo entre as prateleiras da cozinha.
Um shake-hands dissimulado, que transforma-se em penetrações de sexual moralidade,
De cândida imoralidade e de amoral possibilidade de julgamento desapaixonado,
Sim, assim que a noite cai.
O marido é bruto, mas é velho, cansado. Ele precisa dormir cedo.
Laços desfeitos, buscas pela felicidade, insatisfações. Cantos piegas e dolorosos,
Segredo que outrem guarda a sete chaves e que o poeta, temerário, ousa desvendar:
-Eu mal lhe conheço,
Mas eu lhe desejo tanto!
O diáfano rosto da mulher do marinheiro. Austeridades.
Um desejo controlado de desvendar o que se esconde por detrás de um véu proibido, púrpura como o sangue que escorre-lhe, por vezes, por dentre as pernas.
Os anos da juventude que não morrem por inteiro.
As lágrimas não tem cor, por isso não deixam marcas no mundo.
O seu jovem Adam, objeto e instrumento de descoberta, libertação e pecado.
Penalidade e ameaça. O preço do que é pecado, ainda que pecado seja apenas uma palavra suja e inexpressiva.
[ Contextualizo-me, leitor: ]
Um segredo afinal. O que a mulher do marujo guarda, o que o jovem Adam guarda,
O que sabe deus quem mais lá anda guardando também.
Meandros recônditos, soturnos. Silvos de serpente e maldições os protegem.
Segredos. O peso que encerra a língua na boca,
A tranca que aprisiona a palavra.
Calabouços onde a alma se tranca por própria vontade.
[ ? ]
[ Nota: Texto livremente inspirado no filme Young Adam, de David Mackenzie, com Tilda Swinton e Ewan McGregor e na canção Secret, da banda americana Maroon Five, encontrada no álbum Songs About Jane. ]
___
Por Raphaël Crone.
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Tristesse
Com Meus Dentes.
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[ Decifra-me, ou te devoro. ] * [ Ésquilo ]
O piano de Philip Glass costuma cantar pra mim,
Assim como fotos velhas e quadros ainda mais costumam contar-me histórias.
Eu sou feito de arcaismos e modernidades,
Eu me enlaço em minha saudade,
Eu sou necessariamente feito de insatisfações.
Quando o lago de minha alma goza de placidez,
Eu arranjo logo uma pedra para torná-lo revolto,
Nem que seja para simplesmente contemplar um pouco do seu movimento,
Nem que seja para provocá-lo, quando o "exo-vento" nao o faz.
Eu preciso de barulho, de engrenagens, de palavras ferozes,
Eu preciso de saciedade, ainda que esta nunca me sacie,
Eu preciso de misericórdia, mas nunca de compaixão.
Eu sou a juventude, mesmo que ultrapassada.
Eu sou um parceiro eterno, porém trabalhoso.
Eu sou o que uma palavra minha jamais explicou.
Quem sabe, eu seja a Esfinge que devorava viajantes incautos.
[ Decifra-me, ou te devoro. ]
___
Por Raphaël Crone.
[ Decifra-me, ou te devoro. ] * [ Ésquilo ]
O piano de Philip Glass costuma cantar pra mim,
Assim como fotos velhas e quadros ainda mais costumam contar-me histórias.
Eu sou feito de arcaismos e modernidades,
Eu me enlaço em minha saudade,
Eu sou necessariamente feito de insatisfações.
Quando o lago de minha alma goza de placidez,
Eu arranjo logo uma pedra para torná-lo revolto,
Nem que seja para simplesmente contemplar um pouco do seu movimento,
Nem que seja para provocá-lo, quando o "exo-vento" nao o faz.
Eu preciso de barulho, de engrenagens, de palavras ferozes,
Eu preciso de saciedade, ainda que esta nunca me sacie,
Eu preciso de misericórdia, mas nunca de compaixão.
Eu sou a juventude, mesmo que ultrapassada.
Eu sou um parceiro eterno, porém trabalhoso.
Eu sou o que uma palavra minha jamais explicou.
Quem sabe, eu seja a Esfinge que devorava viajantes incautos.
[ Decifra-me, ou te devoro. ]
___
Por Raphaël Crone.
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Enfado .
---
Tem uma hora em que você se cansa de insistir.
Se o redondo deveria ser quadrado e não deixa de ser redondo,
A força certamente não há de ser útil para enquadrá-lo.
Palavras repetidas tornam-se mortalmente enfadonhas,
Profundamente dolorosas, como lacerações de espadachim.
O tempo, que é senhor das coisas do homem e de deus,
(Que não mata o Verbo e que aprimora o verbo)
Encarrega-se de aclarar os erros
E coroar com a razão os justos.
A paciência nunca deixa de ser virtude sábia, pois.
___
Por Raphaël Crone.
Tem uma hora em que você se cansa de insistir.
Se o redondo deveria ser quadrado e não deixa de ser redondo,
A força certamente não há de ser útil para enquadrá-lo.
Palavras repetidas tornam-se mortalmente enfadonhas,
Profundamente dolorosas, como lacerações de espadachim.
O tempo, que é senhor das coisas do homem e de deus,
(Que não mata o Verbo e que aprimora o verbo)
Encarrega-se de aclarar os erros
E coroar com a razão os justos.
A paciência nunca deixa de ser virtude sábia, pois.
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Por Raphaël Crone.
terça-feira, 28 de abril de 2009
Amor, Que Não é Mera Palavra
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Desempregado, cansado,
Suado, sujo, um dia inteiro na rua esperando o tempo passar,
Sem poder voltar logo pra casa,
Doente, com febre e tossindo muito.
Exausto.
Foi assim que eu cheguei na sua casa no fim da tarde.
Você me levou para tomar um banho, me emprestou roupas limpas.
Trouxe um comprimido contra a febre e mel contra a tosse.
Eu me deitei ao seu lado naquela cama apertada,
Você me abraçou e me beijou carinhosamente.
Eu adormeci em seus braços.
Horas depois não tossia mais e já estava melhor.
Acima de tudo, tinha a minha saudade saciada.
Eu lhe adoro, meu amor.
Você cuida de mim a cada dia,
Você, meu remédio e meu alento,
A melhor parte de mim que se transforma em poesia por minhas mãos.
___
Por Raphaël Crone.
Desempregado, cansado,
Suado, sujo, um dia inteiro na rua esperando o tempo passar,
Sem poder voltar logo pra casa,
Doente, com febre e tossindo muito.
Exausto.
Foi assim que eu cheguei na sua casa no fim da tarde.
Você me levou para tomar um banho, me emprestou roupas limpas.
Trouxe um comprimido contra a febre e mel contra a tosse.
Eu me deitei ao seu lado naquela cama apertada,
Você me abraçou e me beijou carinhosamente.
Eu adormeci em seus braços.
Horas depois não tossia mais e já estava melhor.
Acima de tudo, tinha a minha saudade saciada.
Eu lhe adoro, meu amor.
Você cuida de mim a cada dia,
Você, meu remédio e meu alento,
A melhor parte de mim que se transforma em poesia por minhas mãos.
___
Por Raphaël Crone.
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