sábado, 7 de fevereiro de 2009

Onde a Vida Começa.

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[ Let me teach you how to fuck. ] * [ Madonna ]





A exibição de um corpo nú. Os corpos caídos ao redor.
O teor e a teoria do que é instinto e animalidade.
O que ninguém aprende, o que é nato. Incontestável.
A exacerbação dos sentidos, a volúpia dos ânimos,
O arrebatamento das sensações.
O gozo vigoroso e as vigílias continuadas,
O que é sexo, o que é fogo, o que arde,
Posto que é chama,
O que se multiplica e povoa a Terra. Passatempus.
A busca cotidiana. O vício e a virtude,
Antítese do que salva e de quem é Salvador,
Entrega feita pelas mãos do que é o Gênesis.
Luxúria, libidinosos momentos de união concuspicente,
O auge da mágicka e o encontro do amor.
Expressão de afeto e paixão desenfreada.
Eis o que é sexo: a vida, contínuo movimento,
A beleza da existência e o amor que se faz verbo e carne
E que vem habitar entre nós.


[ FOTO: ] *Madonna: "SexBook ", publicado em 1992, em suporte ao álbum "Erotica". Fotografia de Steven Meisel.

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Por Raphaël Crone.

Au Maître Munch.

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[ Passeava com dois amigos ao pôr-do-sol –/ o céu ficou de súbito vermelho -sangue –/ eu parei, exausto, e inclinei-me sobre a mureta –/ havia sangue e línguas de fogo sobre o azul escuro do fjord e sobre a cidade –/
os meus amigos continuaram,/ mas eu fiquei ali a tremer de ansiedade –/ e senti o grito infinito da Natureza. ] * [ Edvard Munch ]
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Existencialidades tétricas. / A erupção que acontece quando menos se espera, / A expressão mais angustiante do que é ser humano. / O caos interior, o domínio dos titãs. / O mergulho nos mundos de Mnemosine e a sega da foice de Hades. / A viagem além-Estige. / Um momento de desespero, um norueguês cosmopolita, / Um momento onde toda a humanidade para em virtude de uma semelhança universal: / A insuficiente segurança que é tentar se ocultar em meio à insegura escuridão da vida.

[ FOTO: ] * O Grito, de Edvard Munch (1893).

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Por Raphaël Crone.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Retrato de Uma Queda.


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Não pense que não, eu vi exatamente.
Contemplei segundo a segundo a forma como você caiu.
Fui a testemunha mais íntima do modo como se operou a sua queda.
Vi suas pernas não serem fortes o suficiente para amparar o peso de seu corpo.
Vi o seu resvalar, o seu tropeçar,
O desesperado movimento dos seus braços para segurar o que já não tinha mais segurança neste mundo.
Vi o estrondoso silêncio e o abafado gemido produzidos pela vergonha de um momento de humanidade.
Senti em minha boca os fios de sangue que escorreram dos rasgos abertos em sua pele molhada.
O saibro de sangue, o amargor do ferro. Hemoglobina. Essências.
Permaneci impassível, imóvel, observei em sequência a chuva da rua lavar sua ferida e levar o seu sangue esgoto abaixo.
Não o ajudei e não o consolei. Não ajuntei seus livros espalhados
E não procurei secar seu maço de cigarros ensopados, inúteis agora.
Não evitei quando pisei seus óculos e senti um frêmito misto de agonia e gozo quando ouvi seus aros partirem-se sob meus pés confortavelmente calçados.
Não senti ódio e nem alegria e nem me rejubilei ou lamentei.
Impassivelmente silente e mortalmente imóvel.
Testemunhar: eis o significado do verbo que aqui não expressa ação, mas inatividade.
Nenhuma sombra de vida ou movimento de minha parte,
A vida relutantemente movimentando-se em você.
Antes de virar as costas ainda tive tempo de ver: o levantar-se, o ato de recompôr-se discretamente.
Você passou a mãos pelos cabelos desalinhados, procurou por seus óculos e soltou uma indivisível exclamação de lamento ao vê-los partidos no chão.
Limpou as roupas sujas, lambeu o sangue dos braços agora nús, pela licença que as mangas da camisa lhes concederam,
Empilhou os livros um a um e colocou-os sob o braço protetor e desprotegido de homem adulto.
Ignorou os cigarros imprestáveis e deu uma última olhada para a cena.
Suspirou: foi tudo o que eu pude ouvir, derradeira queixa.
Saiu, vagarosamente, direção oposta à minha e não olhou para trás.
Também eu apenas relanceei uma última vistoria, não sem um lampejo de sorriso nos lábios.
Vida engraçada! Não pude deixar de pensar sobre isto mais tarde.
Não pude deixar de compôr este ingênuo e soturno retrato,
O retrato de sua soturna e ingênua queda.

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Por Raphaël Crone.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Sua Significação.

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[ Seu toque, seu gosto,/ Sua respiração, seu rosto,/ Suas mãos, sua cabeça,/ Você é doce./ Seu amor, seus dentes,/ Sua língua, seus olhos,/ Sua mente, seus lábios/ Você é ótimo, você é o paraíso na terra./ Eu esperei toda minha vida por você,/ Meu beijo favorito./ Sua pele perfeita, seu sorriso perfeito./ Acordo e você está perto de mim,/ Me aconchego em seus braços e volto a dormir./ Eu me apaixonei por você e por tudo que você é,/ Nada posso fazer, estou realmente apaixonado por você./ Quando você está perto de mim é como o paraíso na terra,/ Você é o paraíso,/ Você é o paraíso na terra. ] * [ Britney Spears ]
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O modo como você muda o meu dia: simplesmente fantástico.
De triste a exultante, de fraco a super-homem,
De tépido a muito quente,
De desconsolado a completamente esperançoso.
Meus pensamentos mais soturnos ganham asas e partem,
Muito distante posso divisar suas formas,
Outrora tão próximas e incômodas.
A dor mais pungente é consolada e remediada,
A ferida mais profunda deixa de verter sangue.
Você é a minha alegria e a minha salvação.
A quem temerei?
Seus braços e seu sorriso são a canção mais doce que alguém já entoou.
Você é o meu paraíso, feito para mim,
Privativo e escondido, onde não sou intruso ou estranho.
Minha praia de cinema, meu oceano particular,
Minha montanha mais alta e meus dias de impassível felicidade.
Me perco em seu abraço e durmo ouvindo o seu coração.
Me perco em outra dimensão e viajo com o povo das fadas,
Acordo e vejo um sonho feito real. Você dissipa a angústia
E sacia a vontade inclemente.
Alimenta o meu melhor e me faz ser bom, como você o é para mim.
Palavras não poderiam ser completas, para dizer o que meus olhos dizem a você.
Todos os clichês tornam-se inevitavelmente necessários e permitidos.
Você é o céu. Meu paraíso.
Definitivamente a quebra do meu submundo, a morte de Hades.
A ruína da escuridão e a luz primordial. A poesia em mim.
Você é o tudo. O imprescindível. O necessário.
Meu francês e meu espanhol, minha inocente virtude.
Objeto de zelo e adoração, meu pedestal e meu humano peregrino-companheiro.
Eu o beijo outra vez. Sigo beijando-lhe com lábios e lágrimas,
Pois me mostrou o amor mais belo, o sentimento mais puro
E a verdade mais impressionante que ninguém jamais poderia mostrar-me aqui.

[ FOTO: ] * Raphaël Crone - Dezembro/ 2008.

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Por Raphaël Crone.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Um Instante Impressivo.



Vi um hippie-chic na rua hoje, encontro estranho.
Ele não fazia malabarismos e não vendia artesanato.
Vestia Giorgio Armani e exibia um anel brilhante em seu mindinho.
Usava uns óculos alternativos e carregava um violãozinho surrado.
Olhou-me com uma fome animal, quando passou por mim,
Luxuriosa, quase desesperadora.
Não lhe dei nenhuma moeda. Não lhe vi os olhos.
Vi-o mais tarde: acho que ele vendeu o tal anel para almoçar aquele dia,
Ou deixou-o em alguma alcova, quem sabe,
Alguma que eu nunca saberia onde encontrar.

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Por Raphaël Crone.

Emboscada.

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[ Eu vou te perseguir,/ Te esfolar vivo,/ Mais uma palavra e você não sobreviverá./ Eu não vou aliviar sua dor,/ Eu não vou acalmar sua tensão./ Você vai esperar em vão,/ Eu não tenho nada que você queira. ] * [ Blue Foundation ]


Observo a noite densa e silenciosa por detrás de um poste ambíguo,
Luminária e esconderijo, eis a sua serventia.
A cidade é engolida pelas brumas, hora após hora,
Torna-se tão vaga quanto Silent Hill. Sangue e gás.
De onde sairá você, Pyramid Head?
De onde virá o primeiro golpe inesperado? Ainda não tenho olhos nas costas, evolução medíocre.
Um pouco de cultura pop em meio ao silencioso assombro da névoa.

Eu espreito a sua passagem como o gato espreita o rato,
Com os olhos em chamas, fascinantemente vidrados.
Ao longe, ouço alguns tons de música, sons de instrumentos sintéticos e de voz arrastada.
Canções de fantasmas melancólicas, eróticas, quase realmente amedrontadoras.
Drácula deve rondar esta região nesta noite.
Que ele não me encontre nesta rua hoje (calafrio, calafrio),
Não hoje, que procuro por você. É meu dia, não o seu e não o dele.

Coloco uma das mãos frias no bolso, acendo um cigarro.
Misturo a fumaça com a bruma, liquidificando a sensação de perda.
Uma perda gasosa, heterogênea,
Onde cada parte se esvai sem pedir licença ou sem dar um aceno de adeus.
Com a fumaça se esvai meu temor e minha memória,
A não ser a sua face, esta ainda permanece comigo.
Permanece, por que preciso reencontrá-la nesta noite.

Não há vozes, não há passos, não há definitivamente Pyramid Head.
Esta cidadezinha que assombro me assombra dramaticamente.
Gela-me a espinha e sussurra-me coisas incoerentes
Em ouvidos que nem eu sei onde exatamente ficam. Time to go.
Abandono a ambiguidade do poste que me oculta.
Agradeço aos fantasmas que cantaram para mim, que embalaram a minha espera.
Resigno-me e parto. É hora de lhe caçar. É hora de lamber os dedos novamente.

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Por Raphaël Crone.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Nós.

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[ Eu sou um caminho de cinzas,/ Queimando sob os seus pés./ Você é o único que caminha sobre mim/ E eu sou a sua única estrada. ] * [ Björk ]
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[ Então o enigma pode ser solucionado/ E você me empurra para isto:/ Um estado de emergência,/ Onde é tão belo se estar./ Estado de emergência, é onde eu quero estar. ] * [ Björk ]


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Aquele que tira a camiseta quando dança, / Que morde a sua orelha e que lambe o seu rosto, como um gato. / O rapaz que olha os seus olhos com a maior ternura do mundo e que em meio à fumaça segue seus movimentos atentamente. / Sentimentalmente sexual e sexualmente sentimental. / O sorriso interior, o blush involuntário. / O que divide com você as alegrias de garoto e as amarguras de homem adulto. / O crescimento harmonicamente conflituoso, as censuras perdoadas. / A paixão gigante, que pisa os dissabores e que embala nosso sono abraçado. / Eu sou aquele que lhe diz: "Tudo se resolverá" e eu sou o mesmo aquele que lhe beija quando tudo é resolvido, enfim. / Sou o que a vida ensina a ser homem, sou valente e frágil, pateticamente incompleto. / Sou a sua complacência pulmonar, a sua sístole e a sua diástole. / Sua circulação de luz, sua respiração de vida. / Sou o menino que sorriu inocentemente ao seu chamado. / Sou um com você e fora de você nenhum outro poderia me alegrar. / Sou a busca da felicidade, sou a batida, aquela que você ouve quando põe a mão em seu peito e quando põe os ouvidos em uma concha do mar. / A batida estranhamente natural da existência. / Sou você e você é eu. / Somos um em espírito e quase religioso amor, somos a consolação da espécie. / O jugo de Jesus, que segundo ele mesmo disse outrora, é leve. / Sou aquele que abrilhanta os seus dias e você é o que enxuga minhas lágrimas indiscretas. / Somos abençoadamente privilegiados, eu por tê-lo e você por me ter. / Somos escandalosamente felizes, por que abrimos nossas portas e janelas ao nosso amor. / Somos frutos da luz e somos insetos da noite. / Somos o futuro que sempre chega, o presente que nunca passa e o passado, que jamais morreu.

[ FOTO: ] *Raphaël Crone - Julho/ 1991.

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Por Raphaël Crone.